A volta à escrita e a treta de bi/pan

 

Oi, gente. A vida andou muito árdua e fui deixando de escrever. Continua tensa, mas tem tanta gente falando sobre isso, incentivando, às vezes de forma bem enfática, que fiquei confortável pra voltar a escrever, procurar pessoas pra colaboração e, enfim, falar de coisas interessantes no blog. Pelo menos de inicio, quero falar mais do “etc”, então estou voltando a um post meu no FB sobre a treta bi e pan. Essa treta é geralmente estimulada por pessoas q não são nem bi nem pan, então sempre acho meio esquisito.

Vamos lá.

Não aguento mais a treta bi x pan. Sério. Então estou postando aqui e vou copiar e colar pro resto dos meus dias. Quem mais estiver lendo, pode compartilhar à vontade, caso veja que o texto abarca o que você pensa e sente.

Uma nota importante pra situar o lugar de onde falo é que me identifico publicamente como bi, porque acredito na ressignificação como método para que a transgeneridade e a ideia de enxergar pessoas e não genitais sejam acolhidas por uma nomenclatura que tem um tiquinho de visibilidade. Em alguns contextos, me apresento como bi/pan. Dito isto, segue a forma como vejo a diferenciação:

A diferença é mais política do que prática.

A pessoa bi sente atração por pessoas do mesmo gênero e por pessoas de outros gêneros. Essa é a ressignificação q a militância bi propõe, pq abarca as pessoas trans e se mantém um termo já conhecido (porcamente conhecido, mas é mais conhecido do q pan).

A pessoa pan se atrai pelas pessoas independente do gênero. Quem se identifica como pan geralmente quer deixar essa questão de se atrair por pessoas trans bem clara e acredita ser melhor usar um termo menos carregado d significados binaristas do q bissexual.

Tanto são termos q não se excluem q muita gente se identifica e descreve como “bi/pan”.

Nenhum termo exclui pessoas trans. Quem exclui é gente transfóbica.

As únicas tretas que acho bem tristes são quando envolve uma pessoa pan se dizendo superior ou mais evoluída do que gente bi e gente bi que diz na maior cara de pau que pan se relaciona sexualmente com qualquer criatura que apareça pela frente, lembrando a parada do copo e coisas do tipo. Quando se fala sobre pan acolher pessoas trans e bi não acolher, geralmente são pessoas cis que falam isso. Essas pessoas nunca perguntam às pessoas trans se elas se sentem contempladas com o termo “bissexual”. Eu mesma sou trans e, como disse antes, costumo falar de mim como bissexual, estou mais próxima da militância bissexual. Tenho várias pessoas conhecidas que pensam da mesma forma que eu e é muito frustrante o silenciamento das nossas vozes quando a questão é sobre transgeneridade.

A gente tem muito mais questões em comum do que diferentes. Vamos dar as mãos pq a luta fica menos árdua com mais gente boa nas trincheiras.

Enormes abraços

PS: por favor, deem feedback sobre o retorno, sugestões de temas e coisas do tipo. <3

Sobre elitismo no poliamor

Elitismo é uma forma de preconceito institucionalizado muito sorrateira. Ele está nas músicas que você precisa conhecer, no lugar onde você tem que comer, nos shows e festas que você não pode perder. Como não estaria, então, nas formas como você deve se relacionar?

A partir do momento em que estão instauradas culturas de maior prestígio social, outras manifestações culturais são exotificadas ou mesmo deslegitimadas. Para dar um exemplo simples, vou falar de música no Rio de Janeiro: quem escuta MPB, jazz, blues, têm mais prestígio e podem falar abertamente do quanto tal música é profunda, interessante, magnífica; quem escuta charme, funk ou pagode jamais pode emitir meia opinião musical sobre algo, em nenhuma esfera de conhecimento, vide a repercussão de quando um professor ousou colocar Valeska em uma prova. Guardemos essa informação.

Nasci e cresci ali no Morro do Juramento, subúrbio do Rio. Ali geral me conhecia, sabia quem eram meus pais, meu irmão, meus avós. Moleque de colégio não vinha de graça pra mim, eu era “bróder” na parada. Isso que hoje chamam de “funk das antigas” foi o que escutei e era o que tocava nas festas dos amiguinhos. Pois bem, na época, por eu ter dificuldade em manter o foco e concentração, minha mãe sabiamente me colocou no ballet, onde passei bem uns 8 anos? Não vou lembrar agora.

Mudei de lugar, de colégio, funk não era tolerado. Toda a minha carga cultural até ali valia um grande nada. Além de tudo da escola, eu tinha que passar por uma “reeducação social”. Aumentando grau de escolaridade, mais conhecimentos gerais eu tinha, mas aqueles da infância/adolescência tinham que ficar escondidos em algum cantinho.

Há uns 3 meses fui me inscrever para fazer dança do ventre. Não segui porque uma lesão antiga em um tendão atrapalhava muito. Dança do ventre é glamurizada, vista como linda, exótica. O que tem vários movimentos em comum e facilitou tantos outros? Isso mesmo, meus amigos, o Funk.

Mas como poderia o elitismo influenciar no poliamor, na prática poliamorista? A informação ainda circula de maneira muito restrita, ou seja, essa ética que defendemos nos relacionamentos com outras pessoas está restrita a uma elite que tem acesso a informações específicas.

A monogamia nunca funcionou nas zonas periféricas, nelas o homem é incentivado e exaltado por relacionamentos paralelos, no estilo “quanto mais melhor”. O homem não sofre com a monogamia, porque é socialmente aceito que ele traia a mulher com quem se relaciona. A mulher é quem fica presa na relação e, quanto mais desprivilegiada, piores são as pressões e julgamentos sobre ela.

É neste ponto em que poliamor tem que se aliar ao feminismo. É aí que se pode mudar, empoderando as mulheres mais desprivilegiadas e, apenas a partir disso, a mulher pode optar por quais acordos as fazem bem.

Há, ainda, duas reflexões possíveis a partir do que foi dito até aqui: críticas à monogamia e críticas ao elitismo do poliamor.

A monogamia não é apresentada como uma opção dentre outras possíveis para estabelecer um relacionamento. Isso se chama mononormatividade, ou seja, é a norma que impõe a monogamia e silencia outras possibilidades. O problema não pode ser a monogamia em si, o problema é a falta de acesso a outras formas de relacionamento, ou mesmo uma mudança na monogamia em que esta deixe de ser necessariamente opressora. É uma questão importante para o feminismo empoderar as mulheres, deve ser questão poliamorista facilitar o acesso a informações.

Há textos que dizem que o poliamor é elitista. Concordo. Hoje, o poliamor só é possível para pessoas de certos nichos culturais. Estamos distantes dos subúrbios, das periferias, dos interiores. De forma alguma devemos nos acomodar nesta posição. É necessário produzir material, compartilhar opiniões, escrever mais, conversar mais. É preciso fazer as informações circularem, chegarem nas pessoas dos subúrbios, periferias, nas cidades de interior.

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Divulgação – Poliamor e Direito das Famílias

No último post, Rafael postou um comentário divulgando seu livro recém-lançado. Não, não tenho um exemplar e mesmo que tivesse acharia difícil avaliar juridicamente o conteúdo, porque não sou jurista (inclusive fica aí o convite pra quem estiver lendo e queira mandar uma resenha, análise ou opinião sobre o livro). No entanto, acredito que valha a divulgação de seu trabalho, não somente pela temática, mas porque, pelo que vi do release, pode interessar a muitas pessoas que nos acompanham, são juristas e procuram saber mais de como anda o assunto, tanto para conhecimento próprio quanto para eventualmente usar na prática. Segue o release enviado pelo autor.

O livro tem como principal propósito o reconhecimento jurídico das famílias decorrentes das relações de poliamor, as quais, em geral, não têm a proteção devida, dando origem à insegurança e à negação de direitos. Traz como premissa uma identificação inicial dos fundamentos desse reconhecimento, tendo como principais objetivos a caracterização do poliamor como uma identidade relacional capaz de dar origem a famílias e a desconstrução da obrigatoriedade da monogamia como único modo de constituir família.

Além disso, sugere-se o reconhecimento jurídico das relações de poliamor pela sua sintonia com:

  • a dignidade da pessoa humana,
  • a liberdade nas relações familiares,
  • a solidariedade familiar,
  • a igualdade,
  • a afetividade,
  • a especial proteção que o Direito reserva à família,
  • a noção de pluralidade no âmbito das entidades familiares e
  • as limitações impostas ao Estado em sua atuação perante a família.

 

Por fim, chega-se à conclusão de que o poliamor é uma identidade relacional capaz de dar origem a uma ou várias famílias, constituindo uniões estáveis e matrimônios, de modo que o Estado deve garantir a mesma proteção tanto para a família monogâmica quanto para a família poliamorosa.

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Sobre compersão

Voltando a falar um pouco de conceitos gerais, venho maturando esse texto na minha cabeça há algum tempo. Compersão não é simples explicar, não é um conceito de que se fale tanto assim, não é dicionarizado – mesmo dicionários não correspondendo aos usos efetivos dos termos, é algum ponto de partida. Enfim, não há muito material que possa servir de referência.

Tentando começar a conceituar compersão, defendo que é o sentimento positivo que um sujeito vivencia quando as demais pessoas em um relacionamento poliamorista se sentem bem; é uma forma de empatia muito específica.

Formular pode não ter sido tão difícil, mas se permitir esse sentimento e deixar que ele aflore na prática é. Isso, como tantas outras amarras que ainda nos prendem, se liga à mononormatividade, aquele mosquitinho dando rasantes nos nossos ouvidos dizendo que podemos perder o amor da outra pessoa caso ela se apaixone também por outra. Como qualquer normatividade, é difícil escapar dela, mas a gente vai tentando.

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Imagem de Natalia Totta

Além de dizer o que é compersão, é importante dizer o que não é, porque há muita confusão sobre o termo e sobre o sentimento em si, então:

– não é o contrário de ciúmes, é outro sentimento que pode coexistir com os ciúmes. Quando se passa a ser poliamorista, caso se tenha ciúmes e inseguranças, é fundamental perceber e pontuar quando acontece e os motivos. Eu, por exemplo, me incomodo quando usam o mesmo apelidinho pra mim e pra outras pessoas. É uma coisa pequena e fácil de contornar. Também é uma forma de querer algo “exclusivo” e sei que tem uma relação com ciúmes. No entanto, isso não impede que eu ache lindo quando as pessoas com quem me relaciono se apaixonam por outras pessoas e vivem relacionamentos com elas;

– não significa amar menos ninguém, é um sentimento muito positivo ligado a amar tanto e querer ver a outra pessoa tão feliz que a felicidade dela transborda para você. É uma forma profunda de empatia com as outras pessoas;

– não significa desleixo ou não se importar com as outras pessoas. Significa se importar sem posse, se dispor a sentir junto, para bem ou para mal. Como acabei de dizer, é uma empatia profunda, passível de acontecer apenas quando as pessoas estão envolvidas a ponto de a felicidade para uma ser também a felicidade das demais.

As formas de lidar com a compersão ou a momentânea ausência dela (porque acho que toda pessoa poli em algum momento desenvolve, de alguma forma) são variadíssimas e dependem muito das pessoas em si, como elas são, se seguem caminhos mais racionais ou mais emotivos, se precisam se recolher pra lidar com os sentimentos ou lidam conforme acontecem. Da minha experiência ao longo desses anos como poliamorista, é um sentimento que surge em algum momento – não saberia e nem acho que seja algo absoluto precisar o que faz surgir – e o importante é deixar que ele cresça e se desenvolva. No fundo, é se desprender mais um tanto da mononormatividade.

Do Poliamor e suas reticências, virgula e outros sinais possíveis…

Essa semana, após muitas conversas e várias reflexões, estive pensando sobre os relacionamentos afetivo-sexuais dentro de uma perspectiva poliamorista, e como isso pode ser traduzido, para mim, através da reflexão sobre minhas experiências e observando as histórias de pessoas próximas, tirando posteriormente minhas conclusões.

Tendo construído, ao longo da minha vida, uma história com meu parceiro de décadas, em que há muita cumplicidade, amizade, amor e tesão entre nós, não acho correto, não me sinto bem mesmo em não priorizar esse relacionamento em relação aos que de um ano para cá venho estabelecendo. Às vezes esses novos relacionamentos vêm com a força das paixões e, momentaneamente, me cegam, mas busco sempre, na medida do possível, ter cuidado com esse parceiro com quem tenho um relacionamento mais antigo, que sinto e quero que esteja comigo ainda por muito e muito tempo. E ele também tem esse mesmo cuidado comigo. 

Não é um tabu. Não é uma regra. Não estabelecemos isso verbalmente. Fazemos esse movimento de proteção do que construímos juntos quase que automaticamente. Isso não nos impede de viver intensamente essas novas histórias e de trazer essas novas pessoas para as nossas vidas. Só que temos uma sensibilidade, uma delicadeza em não magoar desnecessariamente um ao outro. Fomos fazendo isso de modo natural e tem dado certo. Estamos amando outras pessoas, e nos amando muito mais.

Apesar de para alguns isso parecer uma hierarquização de relacionamentos, não encaro dessa maneira. Acredito que tenha mais conexão com níveis de intimidade e cumplicidade construídos, que acabam por escalonar os relacionamentos, o que acontece até nas amizades nas quais não há envolvimento afetivo-sexual. Temos amigos íntimos e amigos que vemos esporadicamente… e nem por isso deixam de ser nossos amigos.

Valorizo a preservação de relacionamentos afetivos que são bons para todas as pessoas envolvidas, que funcionam bem e que têm solidez afetiva. Não precisamos deixar de lado alguém importante para nós porque a relação nova demanda mais atenção. Fazer com que essa dinâmica funcione é trabalhoso e exige muita sensibilidade de todos. Ser poliamorista é muito bom, mas também não é fácil…

Essa é uma observação pessoal das minhas vivências. Cada relacionamento constrói suas regras e sua dinâmica. E isso também não é algo acabado. O bom é que temos a liberdade de conversar e modificar tudo, de acordo com o que vai chegando para nós. Com medo, porém o medo não nos imobiliza. Isso é que é o grande barato de tudo.

Chamada – série documental

Atenção, poliamoristas. Um grupo de documentaristas está desenvolvendo uma série e está procurando pessoas interessadas em participar. Eu pessoalmente conheci parte da equipe responsável e achei o projeto interessantíssimo, então estou avaliando a ideia de participar. Pra quem não tiver entraves como questões profissionais, familiares etc., recomendo muito a participação. Como dado adicional, acho importante dizer que a Julia, que faz parte da equipe, fez o TCC sobre poliamor e fui sujeito de pesquisa. Foi tudo ótimo, tanto na conversa quanto nas análises que ela fez. Segue um breve resumo (dado pela própria Julia) da ideia geral e dados de contato.

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A pesquisa é sobre formas de relacionamento afetivo não monogâmicas para uma série de televisão que será exibida na GNT. A direção fica por conta do João Jardim, que fez alguns filmes como “Janela da alma”, “Pro dia nascer feliz”, “Getúlio”, entre outros. Atualmente ele está com uma série, também na GNT, que se chama “família é família”. Estamos procurando por pessoas que tenham interesse em participar do projeto contando suas histórias. A intenção é achar vivências que ilustrem situações que mostram que as pessoas que vivem desse modo diferente do que a sociedade entende por normal são pessoas comuns, que apenas se relacionam de outras maneiras. vivem, trabalham, comem, dormem, etc. como qualquer outra pessoa. Queremos fazer um programa sensível, que retrate essas questões de forma positiva, e não como curiosidade ou bizarrice. É um programa fundamentalmente sobre amor e afeto que ajude a retirar o estigma social que recai sobre as pessoas que escolhem viver de diferentes modos.

Contatos:

(21) 7843 8596

juzylber@gmail.com

https://www.facebook.com/julia.zylbersztajn

Descascando a cebola: um sinuoso caminho pelo amor e pelo autoconhecimento (parte II)

Vivi um período de muitas decepções. Mulheres que não queriam nada além de sexo e outras que desejavam ter alguma relação mais profunda comigo, mas não a levavam avante. A dificuldade de lidar com o turbilhão de emoções que uma relação aberta demanda, principalmente no início, fez com que tivessem dificuldades de bancar a sua efetivação. O bacana foi que, em todas estas tentativas de efetivação, a amizade continuou se fortalecendo e os diálogos e as experiências vividas ajudaram nos nossos processos de autoconhecimento.

Neste mesmo período, tive meus primeiros contatos com o site PolyPortugal e com os textos do Daniel Cardoso. Conheci alguns meses depois a Mônica Barbosa em pessoa e tivemos boas e longas conversas sobre o tema Relações Livres e a história do grupo RLi de Porto Alegre. A rede social OkCupid me ajudou a encontrar a Mônica e novas amigas que mantenho contato até hoje. Depois de uns dois anos de termos decidido abrir a relação de outra forma, tive algumas experiências de intimidade com algumas amigas, em diferentes graus de aproximação. Foi um momento que passei a encontrar mais compreensão e apoio do que hostilidades dentre as novas amizades que estabelecia, tanto com homens quanto com mulheres.

O fato de passar metade da semana em outra cidade, onde trabalhava, me ajudou a administrar melhor a nova vida que comecei a construir ali. Naturalmente, todas as pessoas envolvidas sempre souberam que eu tenho uma relação aberta, algo que não é segredo entre meu rol de amigos, entre alguns dentre minha família e no meu local de trabalho.
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Alguns meses depois, a oportunidade de estabelecer relações mais profundas e íntimas com mais de uma pessoa começou a se tornar realidade. Comecei uma relação com uma amiga, muito querida, de alguns anos, a chamarei de Alexandra. E logo em seguida iniciei com uma outra mulher que havia conhecido por acaso em uma de minhas viagens de ônibus, a chamarei de Carol. Para todos nós, relações livres ou poliamor era algo novo na prática. Para Alexandra e Carol era uma novidade prática e teórica. Eu e Cora só tínhamos uma experiência um pouco maior nas relações abertas, do tipo swing e saídas esporádicas com algum amigo ou amiga. Alexandra e seu companheiro abraçaram rapidamente a ideia de concretizar o mais plenamente possível a proposta do poliamor. Eles me trouxeram novas textos e reflexões profundas sobre o tema, que me acrescentaram bastante. Apesar de tanto eu quanto Cora termos nos identificado mais com a anarquia das relações amorosas, eu não via conflito algum entre a proposta do poliamor e a filosofia anárquica. Como Cora interpreta as propostas poli como normatizadoras, ela não compartilha da mesma postura que eu tenho.

As dificuldades práticas, na disciplina do planejamento dos tempos com cada uma, eram desafios para mim. Principalmente quando se tem uma filha. Cora tinha dificuldades de aceitar que eu estivesse apaixonado e tendo o nível de intimidade que estava tendo com Alexandra. Por outro lado, Alexandra demandava uma atenção que Cora interpretava como invasiva. Foi o período mais difícil que vivi nesta trajetória. Minha relação com Cora ficou por um fio, pois ela estava em dúvida se aceitaria ter, de fato, uma relação poliamorosa comigo ou não. Neste período Alexandra me apresentou um casal muito bacana que haviam se mudado para mesma cidade em que eu estava trabalhando. Este casal defende a “filosofia” poliamorista há alguns anos e de forma engajada. Trouxeram novas informações, tais como: a definição equivocada trazida pelo RLi sobre o conceito de poliamor, o cenário do movimento em outros Estados do Brasil, e a indicação de um livro que tenho percebido que é quase que a “Bíblia” da comunidade poli internacional, “The Ethical Slut”. Na época este casal tinha acabado de criar uma comunidade no facebook para a discussão dos temas ligados ao cenário poliamorista na Bahia e passei a participar ativamente, e a me sentir mais engajado, nesta comunidade.

Diminuídos os conflitos entre mim e Cora no período inicial, tensões entre mim e Alexandra emergiram de forma intensa e cresceram de tal forma que decidimos terminar a relação que tínhamos a fim de que a amizade pudesse permanecer. Eram conflitos que traziam dor, então tomamos a atitude que julgamos ser a mais prudente. Apesar de tudo, este foi um período que aprendemos muito um com o outro. Atualmente, mantenho uma relação mais próxima com Carol e Cora. Carol tem um namorado em que se relaciona há mais tempo. Ela não curte muito discussões teóricas, ela curte somente viver aquilo que sentimos e prefere a leveza de um amor que busca viver o carpem diem de cada encontro. Hoje esta é a segunda relação mais longa que tenho. Cora tem uns amigos que sai esporadicamente. Ela tem começado a ter interesse em ter relações poliamorosas também. Atualmente, tenho construído uma relação amorosas à distância, baseadas somente na afinidade e no compartilhamento das dores e alegrias do dia-a-dia. Apesar de ser à distância, temos desenvolvido nossas próprias peculiaridades e nossos respectivos graus de intimidade de acordo com aquilo que vamos conhecendo sobre cada um.

Posso dizer sem titubear que hoje me sinto bem mais realizado e feliz do que há anos atrás. Estas relações não são todas sempre cheias de flores… Cora, atualmente, tem buscado aceitar este novo estilo de vida. O que é uma evolução, dado que há pouco tempo atrás ela era avessa a qualquer possibilidade de aceitar uma relação poliamorosa.

O principal resultado desta tortuosa caminhada é que aprendi, e continuo aprendendo, sobre o amor como nunca antes, sobre quão rico e variado é o papel do sexo na vida das pessoas, e sobre mim mesmo. Vejo este processo de autoconhecimento como algo semelhante ao trabalho de descascar uma cebola, a cada camada que tiras, mais perto do centro estarás, mas isso poderá lhe custar algumas ou muitas lágrimas. Assim, hoje me sinto mais realizado, muito menos possessivo e mais íntegro.

UNIÃO-VERDADEIRA

Descascando a cebola: um sinuoso caminho pelo amor e pelo autoconhecimento (parte I)

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O amor Dança na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha Pode se machucar

Que sufoco! Louco! O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Pra um ethos no Brasil!

(Adaptado da canção O Bêbado e A Equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco)

Meu caminho no mundo da anarquia das relações amorosas (http://amoreslivres.wordpress.com/2013/07/20/relacionamentos-anarquicos-em-8-pontos/) é uma história de transformações, descobertas, dores, decepções, prazeres, realizações e alegrias. Ela começa a partir de um desejo de libertação de convenções sem sentido que me fazia sentir aprisionado e de um desejo de ver minha companheira (a chamarei de Cora) também liberta dos mecanismos patriarcais e de repressão sexual. Via também como um bom caminho para trazer até mim estratégias de auto sabotagem do machismo que está impregnado em minha formação familiar. Sempre gostei de tocar e fazer carinho em minhas amigas ou mesmo dividir uma cama, sem nenhuma pretensão sexual necessariamente. Curtia, e ainda curto, esta liberdade do afeto sem a obrigação do ter que fazer isso, ou ter que fazer aquilo. Também sempre tive mais amigas do que amigos. Não curtia muito os assuntos discutidos entre os homens, tipo: futebol e a competição de quem fez isso ou fez aquilo, ou pegou essa ou aquela menina. Por muitos anos fui um fervoroso evangélico, e somado ao fato de ter me casado, passei uns 15 anos reprimindo este desejo de retornar àquela liberdade que eu tinha com minhas amigas. Um ponto importante sobre este período de minha vida é que, desde quando era cristão, nunca vi muito sentido na monogamia fora dos valores religiosos tradicionais, pelo menos no lado ocidental do planeta. Depois de mais de um ano afastado do cristianismo (já havia abraçado o agnosticismo e o pragmatismo filosófico nesta época), eu descobri os clubes de tolerância e swing. Isso me pareceu muito atraente. Anos antes, um casal que conheci numa sala de bate-papo me falava que tinha esta prática. Em um primeiro instante achei meio louco imaginar minha companheira transando com outra pessoa. O papo rendeu por algumas semanas, poucos meses talvez. Nesta época ainda era cristão e só observava estas coisas de longe, minha postura era de curiosidade e aversão. Até que anos mais tarde, conheci, pela internet, um clube de swing. Minha intenção era ir para observar e, se tivesse muita sorte – pensava eu – conhecer um casal legal em que eu e Cora pudéssemos fazer amizade, e assim, eu pudesse acariciar uma ou mais mulheres, e Cora, algum homem que a atraísse. Pensávamos que poderia ser bacana transar no mesmo ambiente com um ou mais casais, mas sem troca. Na verdade, era um voyeurista e não sabia ainda. Nesta época nunca havia ouvido falar de poliamor ou relações livres, só do swing e de alguns casais mais corajosos e, como eu pensava na época, bem descompromissados que tinham relação aberta. Estava sendo muito influenciado pelos textos de Flávio Gikovate e Anthony Giddens (livro: A Transformação de Intimidade). No início, foi bem difícil convencer Cora em ir a este clube. Havia muitos medos: de ser reconhecida, de não se sentir bem, de se sentir culpada depois… Alguns destes medos eu também tinha. Até que criamos coragem e fomos. Gostamos muito da experiência e a repetimos várias vezes. Fomos conhecendo pessoas pela internet que eram da comunidade swing e tivemos a nossa primeira experiência. Rolou a troca mesmo! No início, foi uma mistura de vários sentimentos, ciúmes e um pouco de tristeza pela maneira como começamos. Eu não esperava que Cora iria sentir vontade de transar logo na primeira saída com um casal, ocorreu fora do combinado. Mas eu sabia que havia este risco e banquei. O sentimento de excitação pelo novo e de libertação foi bem maior que o de tristeza. O ciúme não durou mais que uma semana. E logo desejamos repetir a experiência. Passamos a conhecer os textos da Regina Navarro nesta época, e eles caíram como luva. Nossas experiências no swing foram cada vez melhores do ponto de vista do prazer sexual. No entanto, com o tempo, algumas coisas começaram a me incomodar na comunidade swing. As pessoas, em muitos casos, são vistas como objeto de troca num mercado. O mercado, que me refiro, não é pela troca de prazer em si, mas pela troca de parceiros. Basta dar um breve passeio em um site de swing que se constatará o quanto o corpo feminino é colocado desproporcionalmente mais em evidencia do que o masculino, e quantos casais desejam que as mulheres sejam as ativas realizadoras dos mais diversos fetiches e fantasias. O homem é muitas vezes o ser que gerencia os contatos, e se expõe menos, seja em relação a sua imagem, seja em relação as experiências transgênero. A lógica fortemente presente no swing é a seguinte: só transarás com minha esposa se eu transar com a sua. Não são raros os casos em que a mulher “acompanhava” o marido e se submeteram, inicialmente, a estas experiências para que evitasse “o mau maior chamado traição”. Depois de um certo tempo, algumas começam a curtir mais também, outras aceitam que seus esposos saiam com casais já conhecidos. Muitas me diziam isso. Aí fica como um toma lá dá cá (tendo a mulher como a moeda de troca central)! O principal desafio dos casais que participam do swing é encontrar casais que tenham afinidade entre si, é muito comum um gostar de um, mas o outro não gostar do outro. Eu, como não curtia esta lógica – em que quando não era o da “troca compulsória”, era o de que alguém tem que ceder um pouco para que role a troca, não me importava (e ainda não me incomodo) que minha companheira participasse de ménage com um outro casal. Mas com o tempo tudo isso foi me deixando meio triste, pois não me sentia realizado sexualmente no meio swinger. Não tenho nada contra a prática em si, mas dá muito trabalho encontrar algum casal bacana. Isso demanda muitos encontros e desencontros e longas conversas que em muitos casos não levam a nada porque não são poucos que estão ali somente para transar. Até que decidi propor termos uma relação aberta de outra forma. Que eu pudesse sair com uma ou outra amiga ou casal e ela saísse também com um amigo ou casal. No início, houve muita resistência. Novos medos surgiram e o processo terapêutico ajudou muito durante toda essa caminhada, desde o seu início. Aceitamos então ter uma relação mais livre e aberta. Logo em seguida Cora engravidou (já estava em nossos planos). Isso nos levou a nos afastar por uns meses destas experiências que estávamos buscando. Da parte dela o afastamento durou mais tempo. Tive contato com o site da Rede de Relações Livres (RLi) e com os textos de Mônica Barbosa que fez uma dissertação de mestrado sobre relações livres. Me identifiquei bastante, naquela época, com um fragmento escrito por ela, dizendo que o caminho do poliamor é, as vezes, mais de solidão do que de muitas companhias. Eu e Cora assistimos documentários, filmes e um seriado sobre o assunto. Duas amigas, em que conversava bastante, se afastaram de mim depois que contei meu estilo de vida. Uma chegou a me bloquear no facebook. O mais comum é te julgarem, no mínimo, como estranho ou imoral. Alguns colegas tiveram a clássica postura de achar que isso é coisa de homem fraco, que aceita ser traído. É comum também as pessoas acharem que discutir o tema significa tentar convencê-las a fazer o mesmo. Foi um tempo que achava que somente fora da Bahia que poderia ter alguma relação poliamorosa ou quando já estivesse bem mais velho.

 correnteamizade

(continua)

Dia da visibilidade bissexual: sobre sistemas de manutenção de preconceitos e opressão

Hoje é dia da visibilidade bissexual e membros da comunidade bi acordaram de fazer uma blogagem coletiva sobre o tema, como forma de tentar efetivamente construir uma rede maior e mais diversificada de textos bem informados sobre o tema. Como uma parte considerável da divulgação e conversas sobre poliamor está ligada à sexualidade, nada mais justo do que participarmos também. Ano passado, escrevi esse texto no dia da visibilidade lésbica e bi, mas felizmente o cenário vem mudando e cada vez mais nosso próprio dia de visibilidade pode ser destacado.

Acredito que a opressão que nos é imposta e sua manutenção venha principalmente de três fontes: a heteronormatividade, o monossexismo e a mononormatividade – nessa ordem. É claro que nem toda pessoa heterossexual, monossexual ou monogâmica perpetua preconceitos. Quando falamos de normatividades e sexismos estamos falando de sistemas, de formas institucionalizadas de opressão e preconceito.

A heteronormatividade afeta toda pessoa que não seja heterossexual, então é algo combatido pelo movimento ALGBTI – ou LGBT, ou LGBTT ou ALGBTQ, já que não temos uma sigla estabilizada como GLS foi por muito tempo – como um todo. Trata-se de um sistema de opressão que dita que todas as pessoas deveriam ser heterossexuais. Aquelas que não são – que estão fora dessa “norma” – são doentes, aberrações… de alguma forma, estão erradas e não deveriam existir. Daí vêm a maior parte dos discursos bifóbicos, homofóbicos, lesbofóbicos e todo o ódio carregado contra quem não é heterossexual.

As comunidades G e L se organizaram, se tornaram mais visíveis e até respeitadas – apesar dos casos terríveis de homofobia e lesbofobia que vemos; chegamos a vê-los porque a comunidade é mais organizada e denuncia, faz reverberar de forma muito eficiente qualquer caso desse tipo. No entanto, é por parte desses grupos que sofremos uma parcela enorme de bifobia. Isso acontece por conta do monossexismo, que é uma forma de perpetuação de preconceitos, ditando que cada pessoa só deve sentir atração por pessoas de um gênero, seja o mesmo ou o outro; ou seja, ou a pessoa é heterossexual, ou gay ou lésbica. Além de altamente binarista no que diz respeito às identidades de gênero, essa lógica exclui e apaga pessoas bissexuais e pansexuais, seja de forma sutil, como não nos citando entre os grupos que sofrem discursos heteronormativos de ódio, seja abertamente reproduzindo falas como “bissexual não sabe o que quer”, “é uma fase”, “bissexual é uma pessoa indecisa” e incontáveis outras frases ofensivas (incontáveis mesmo… quando você acha que já ouviu de tudo brota uma nova).

Um dos grandes preconceitos sobre bissexuais é de que somos pessoas incapazes de nos mantermos fiéis em uma relação monogâmica. Além de ser uma afirmação falsa, uma vez que a orientação sexual de uma pessoa não está ligada ao caráter dela e nós não somos criaturas guiadas apenas pelo desejo sexual (que é uma fetichização da pessoa bi, aliás), ela é, sim, mononormativa. Ela só é viável e tão propagada porque vivemos em uma sociedade que abomina qualquer outra forma de relacionamento que não seja a monogamia. Dessa forma, o conceito de fidelidade tem uma força enorme e o preconceito citado no começo desse parágrafo assusta as pessoas que pensam em se relacionar com bissexuais. Se não houvesse a mononormatividade, mesmo com esse tipo de discurso circulando, ele talvez não fosse problematizado, porque não estaria entranhada da cabeça das pessoas a ideia de que os relacionamentos têm que ser monogâmicos.

Por fim, o que vemos são essas estruturas construindo e mantendo discursos de opressão que elas mesmas silenciam. Ou seja, quando há um discurso bifóbico, dificilmente a reação/resposta a ele circula com a mesma força ou com força suficiente para combatê-lo. Por isso é importante a organização da comunidade; por isso há um esforço coletivo de conscientização e sensibilização das pessoas para as questões bissexuais; por isso há esse texto.

Vou listando, à medida que for encontrando, outros textos da blogagem coletiva. Para informações mais abrangentes, já deixo a recomendação pro bi-sides, site que trata das diversas questões bi, divulga eventos, de uma forma muito clara e didática.

Vídeo disponível em: http://youtu.be/RhTg9D8Ee9c

Texto no Blogueiras Feministas

Texto no Biscate Social Club

Texto no Na TV

Poema no Palavra com B

Texto no Entendidas, Encontros em SP

Texto em Um Pote de Ouro

Texto em Mídia pra Quem?

Texto do Coletivo Bil

Texto em I Don’t Mind the War

Texto em Dias a Duas

Texto em Inspiração Política e Literária

Duvulgando: Carta Aberta à ERC, Ordem dos Médicos, Associação CASA e canal MVM

 

Para quem não acompanhou nos grupos sobre Poliamor no último mês, houve em Portugal um programa contendo afirmações extremamente preconceituosas sobre poliamoristas e a própria prática do Poliamor em si. Com base nisso, o grupo PolyPortugal se organizou junto a outros grupos e redigiu a carta aberta que divulgamos a seguir. Por que isso nos importa? Primeiramente, por uma questão de solidariedade com outros grupos de poliamoristas; segundo, porque pode, efetivamente, nos atingir, uma vez que é um discurso de “autoridade” que, mesmo baseando-se no vento pode eventualmente se voltar contra nós. O grupo Poliamor-BA é signatário da carta e, dado que os autores atuais do blog são deste grupo e era importante ter um link, colocamos o daqui mesmo.Todas as pessoas interessadas podem individualmente assinar a carta, conforme o link abaixo.

Carta Aberta à ERC, Ordem dos Médicos, Associação CASA e canal MVM

Originalmente publicado por PolyPortugal

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Considerando…

Que Manuel Damas se apresentou, no passado dia 16/07/2014, no seu programa “Sexualidades, Afectos e Máscaras”, nº. 31, transmitido no canal MVM, das 21:30 às 22:30, enquanto médico e enquanto sexólogo e que, a partir dessa posição, o mesmo fez afirmações que a) não apresentam sustentação científica ou são contra o state of the art científico que lhes diz respeito, b) são redutoras e patologizantes de uma minoria, aproximando-se do discurso de ódio, c) envolveram o apelo à auto-mutilação e, potencialmente, ao suicídio, contra os códigos deontológicos vigentes, tanto médico como para a Comunicação Social; apresentamos abaixo uma descrição detalhada dos eventos perante os quais vimos apresentar queixa pública:

  • Afirmou, à revelia do Manual para os Mídia sobre Prevenção do Suicídio publicado pela Organização Mundial de Saúde, à revelia do Código Deontológico da Ordem dos Médicos Portuguesa (no seu artigo 57º), e à revelia do Protocolo de Cooperação celebrado no presente mês entre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e o Plano Nacional para a Saúde Mental, Manuel Damas apresentou como alternativa a estar numa relação poliamorosa, “vamos cortar os pulsos, como nos filmes […], cortar na longitudinal”, acompanhando esta afirmação de mimética de auto-mutilação e tentativa de suicídio;
  • Afirmou que o poliamor é um caso de “prostituição emocional” e que se trata de “prostituir os afectos”, empregando assim termos relativos ao trabalho sexual como insulto ou comparação pejorativa, que vão contra o trabalho feito na área do trabalho sexual realizado pela Associação CASA, da qual é Presidente da Direcção;
  • Afirmou, contra a investigação de ponta feita na área, que é impossível amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo;
  • Afirmou que as relações poliamorosas se baseiam todas, inevitavelmente, na exploração psico-emocional de pessoas com problemas clínicos de auto-estima e de dependência afectiva;
  • Afirmou que as relações poliamorosas são comparáveis a seitas religiosas radicais norte-americanas;
  • Afirmou que o facto de o número de poliamorosos auto-identificados ser relativamente pequeno (sendo que o número apresentado não corresponde sequer à realidade) era algo importante “para a estabilidade interna da população portuguesa”, já que o poliamor “faz mal à população”;
  • Afirmou que as pessoas poliamorosas são, pelo mero facto de estarem em relações poliamorosas, criminosas;
  • Afirmou que pessoas do sexo e género feminino que estejam em relações poliamorosas são “servas”, fazem parte de um “harém”, e que o facto de nelas estarem levanta dúvidas sobre se estão “no perfeito juízo e na posse das capacidades de análise”;
  • Afirmou que “a poligamia é mais decente” ao mesmo tempo que se afirmou um “verdadeiro defensor da igualdade de género”;
  • Afirmou que “não contribui para este peditório”, referindo-se a considerar, profissionalmente, o poliamor como algo válido e passível de fornecer experiências tão saudáveis quanto uma relação monogâmica, mas foi Padrinho da Marcha do Orgulho LGBT do Porto de 2009 (em que o grupo PolyPortugal fez parte da Comissão Organizadora), cujo Manifesto aborda explicitamente a existência de “relacionamentos amorosos responsáveis entre mais de duas pessoas”, demonstrando assim que ele já esteve, noutra ocasião, em movimentos que apoiam relações poliamorosas;

Vimos por este meio…

Exigir que as várias instituições directa ou indirectamente envolvidas na ocorrência ajam de acordo com os seus princípios e, acima disso, com o que se encontra legalmente e deontologicamente estipulado a nível nacional e internacional.

Para esse fim, vimos por este meio formalmente apresentar queixa e requerer:

  • Que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social averigue as ocorrências relatadas, intervindo em conformidade com as suas próprias directivas junto do canal MVM;
  • Que a Ordem dos Médicos averigue as ocorrências relatadas, intervindo em conformidade com as suas próprias directivas, junto do seu membro, Manuel Damas;
  • Que a Associação CASA, envolvida na produção do dito programa, se posicione publicamente face ao sucedido;
  • Que a Associação CASA, face ao exposto acima, apresente um pedido público de desculpas aos vários grupos e colectivos afectados;
  • Que a Associação CASA afaste o seu Presidente da Direcção, Manuel Damas, por crassa violação dos objectivos da mesma Associação, nomeadamente da “Universalidade do Direito à Felicidade” e da “vivência em plenitude dos Afectos, sem tabus nem estereótipos”;
  • Que o canal MVM, face ao exposto acima, apresente um pedido público de desculpas aos vários grupos e colectivos afectados;
  • Que o canal MVM garanta aos vários grupos e colectivos afectados, nomeadamente mas não limitado ao grupo PolyPortugal, o exercício do Direito de Resposta, tal como se encontra previsto na Lei de Imprensa;
  • Que o canal MVM se comprometa a emitir em condições semelhantes uma entrevista ou série de entrevistas a profissionais com a devida qualificação para apresentar diferentes visões, cientificamente fundamentadas, do tema.

As organizações signatárias

PolyPortugal

ActiBistas – Colectivo pela Visibilidade Bissexual

Bichas Cobardes

Braga Fora do Armário

Clube Safo – Associação de Defesa dos Direitos das Lésbicas

GTP – Grupo Transexual Portugal

Não Te Prives – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais

Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGay Transfobia

Poliamor – BA (Bahia – Brasil)

PortugalGay.pt

PortoGay

AEESMAE

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