Pausa pelos protestos de 20J

Estou avisando que não vou postar por algum tempo (eu sei que isso é ruim para o blog crescer e conquistar seguidores), porque estou envolvida em divulgar e participar das manifestações que estão acontecendo. Tenho vários posts em mente ainda, então por favor não sumam e entendam que não dá pra se dedicar a tantas causas ao mesmo tempo.

 

Participarei do 20J, não digo que esteja tranquila, porque as imagens, vídeos e relatos requerem muito estômago e ninguém quer ser vítima de violência policial. No entanto, é preciso que as pessoas vão às ruas, que se manifestem, porque há muito deixou de ser uma luta somente pelos reajustes de taifa e passou a ser algo muito maior. É a luta pela desmilitarização da nossa polícia, pelo nosso direito de manifestação legalmente garantido, mas que não podemos exercer, é para viabilizar outras manifestações sem repressão policial (inclusive, pra não sair muito da pauta desse blog, se um dia poliamoristas se organizarem pela divulgação, contra o preconceito e a favor de casamento igualitário entre mais de duas pessoas).

Sexo Seguro

Dentre as coisas que eu acho cruciais mas que muita gente não dá muita atenção está a questão do sexo seguro, particularmente envolvendo mulheres. Esse é o meu foco porque há muita informação sobre sexo com homens cis (em geral, ponha uma camisinha no pênis adequadamente e tá tudo certo).

Por um machismo sufocante, nos privamos de muitas coisas. Muitas evitam se tocar, ainda acham que preservativo é escolha do parceiro, mal conhecem seus próprios corpos e caem na terrível ilusão de que sexo entre mulheres é seguro. Fato é que há pouca informação sobre isso, praticamente nenhuma política pública nesse sentido e os métodos, como explicarei, são meio broxantes, trabalhosos e/ou muito caros.

  1. Cortar uma camisinha: Todo mundo já ouviu falar nesse. Certamente é o mais barato, há uma enorme variedade de camisinhas por aí, mas ainda tem todo o trabalho de parar tudo, cortar a camisinha e ficar segurando, ou seja, perde-se a mobilidade das mãos, do toque – o mesmo serve para os chamados “lençóis”, que são basicamente camisinhas já cortadas;Imagem

     

  2. Camisinha feminina: Testei recentemente e, de fato, protege quase toda a vulva (bem, pelo menos a minha), mas pelo menos a marca que testei até o momento é grossa demais, muito difícil de sentir algo além do calor da boca dx doutrxs. Além disso, tem todo o lubrificante, que incomoda x parceirx. No entanto, dá bastante mobilidade para as mãos, que não têm que segurar nada. É uma boa opção pra se levar na bolsa, é relativamente fácil achar em farmácias e é moderadamente cara. Além disso, só escapou fluido vaginal pela parte de baixo, portanto é fácil não se expor e permite uso de sex toys, dedos, língua mais avançada e outras coisas boas. Quando encontrar uma mais fininha eu aviso. Se souber de alguma legal, comente, por favor;
    ImagemImagemÀ esquerda está a que experimentei e à direita a imagem mostra bastante bem como fica o visual
  3. Calcinha preventiva Oral Sex: Lançada, salvo engano, ano passado, foi a melhor opção até o momento. Ela é ajustável, não fica feia e a camada de látex é bem fina e sem lubrificantes. Ainda não testei nesse caso, mas me parece uma boa opção para contato vagina-vagina. Se alguém já testou pra esse caso, por favor, comente sobre sua experiência! O problema é que ela realmente só protege pra sexo oral, é uma “capinha” de látex que fica por cima da vulva. Ela permite mobilidade total, já que adere bem e não notei líquidos vazando por lugar algum. Outro problema é que ela é cara. Em sex shops virtuais, o valor varia entre 8,90 e 19,90. É um produto descartável, ou seja, deveria ser usado somente por uma noite. Fica caro porque é novidade, tem uma parte com rendinha, tecido e elásticos pra ficar bem justa.
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4. Se sua parceira for uma mulher trans pre-op, também são necessários métodos de barreira. Aqui vale o uso da camisinha e, pela mesma questão de sensibilidade, melhor se for daquelas mais fininhas, sem látex, melhor. Elas estão ficando cada vez mais fáceis de encontrar nas farmácias e mais populares.

A partir dessas experiências e de minha conversa com minha ginecologista sobre o assunto, acredito que a melhor alternativa é tomar as vacinas pra HPV e Hepatite, ter aquela conversinha com qualquer parceirx com quem se pretenda ter interações sexuais mais avançadas e cobrar políticas públicas efetivas pra prevenção, porque as que estão aí são caras e/ou ineficientes. Cobrar até 19,90 para as pessoas se prevenirem é um absurdo!

E eu nem vou comentar Magipac, que é aquele filme de PVC, que não tem elasticidade, se rompe facilmente e é terrível de levar na bolsa. Não recomendo de forma alguma.

Minha gineca, que é sensacional, confirmou a falta de políticas públicas, inclusive a pouca divulgação desses meios existentes (vou levar uma dessas calcinhas da próxima vez pra ela ver e ficar pra mostrar eventualmente a outras pacientes). Segundo ela, o pH vaginal, onde se proliferam certas bactérias/vírus das DSTs é incompatível com o pH da boca, mas é possível se contaminar com HPV através de sexo oral, sim. Obviamente, contato entre genitálias também tem seus riscos, compartilhar sex toys e mesmo usar os dedos, caso haja machucados (o que é importante particularmente pra mulheres que fazem as unhas e tiram cutícula). Obviamente, tem também a AIDS, que pode não ser detectável em exames mesmo após 6 meses do sexo sem proteção, o que, mais uma vez, exige uma certa conversa direta e honesta com parceirxs.

Eu mantenho meus exames em dia, peço a qualquer gineco/a me virar do avesso todo ano, mesmo quando vivia numa relação mono e confiando plenamente em meu parceiro, porque eu tenho um perfil um tanto paranoico. Considerando que meus exames continuam vindo dignos de estrelinhas, acho que não é tanta paranoia assim.

Lembram quando falei que em poliamor é importante não odiar DRs? Então, esse é um lado complicado e esse tipo de conversa é importante para a saúde de todxs envolvidxs. Não é só a sua vida, seu corpo, mas a exposição alheia. Numa relação que vai muito além do sexo, que inclui também uma grande dose de carinho, afetividade e cuidado, a questão deixa de ser apenas de um indivíduo, envolve a preocupação de outros. Além disso, passa a ser questão de um grupo, passa a ser questão de saúde pública.

Sabendo de mais novidades, tendo dúvidas ou comentários de qualquer tipo, já sabem o que fazer. =-)

 

Queria agradecer à Andrea, que me chamou atenção, em um tópico não relacionado, para a concepção de mulher que nós temos estar ligada necessariamente à presença de uma vagina. Eu tenho horror à transfobia e nesse post quase caí na armadilha de ser cissexista, sem a menor intenção. Aproveito pra deixar claro – caso ainda não estivesse –  que esse blog é contrário a qualquer opressão. Se alguém me pegar num deslize desses, por favor, avise. Agradecerei demais.

Sobre Poliamor

Poliamor é uma forma de se relacionar afetiva e sexualmente com as pessoas apoiada em basicamente três pilares: diálogo, transparência e honestidade. Além disso, o elemento basilar que creio que o diferencie de outras possibilidades é a existência de acordos. Esses acordos consistem no estabelecimento de certas regras que garantam o bem estar da relação e de todos os envolvidos, obviamente.

A quantidade de parceiros e os acordos podem variar imensamente. Tecnicamente, cada grupo pode ter suas próprias regras e essas regras podem variar de acordo com novxs parceirxs que surjam. Não há a necessidade de se estabelecer um parceiro primário – uma pessoa pode estar solteira e praticar poliamor –, mas é bem comum que se formem núcleos de duas ou mais pessoas (tríades, casais que se juntam, uma infinidade de possibilidades).

A forma mais conhecida e, portanto, mais fácil de começar a explicar é o relacionamento aberto, em que geralmente um casal acorda que cada um pode se relacionar com outras pessoas independentemente. Alguns fazem questão de saber quem são essas pessoas, outros não. No entanto, como disse, esse é só um dos acordos possíveis. Há casais que se relacionam com outras pessoas juntos; outros em que um pode se relacionar apenas com mulheres ou com homens; outros em que outras pessoas passam a fazer parte integral da relação e se fecha o grupo. A esse último chamamos polifidelidade, que não é um requisito para o poliamor, mas é uma possibilidade.

É estritamente necessário gostar ou pelo menos não ser totalmente avesso às DRs, porque esse tipo de relacionamento abarca a possibilidade da mudança de acordos, seja de forma geral, seja com um/a lover específicx, ou em uma situação peculiar. É uma revolução contínua, avaliação da relação e dos processos em que todos estão envolvidos. Essa é a parte que eu acho linda. Há quem ache um saco. Ainda bem que há outras possibilidades não-monogâmicas por aí pra quem não se identifica com essa.