Sobre Poliamor II

Já vi várias definições de poliamor, ainda não encontrei uma que considero ideal e talvez jamais encontre, por ser um conceito muito flexível. Uma bastante razoável é “não-monogamia responsável (ou ética)”. Ou seja, permitir a si mesmx a possibilidade de ter mais do que umx parceirx afetivo-sexual, mas sem deixar a honestidade, responsabilidade e respeito por cada parceirx de lado.

Mas, ainda assim, essa é uma definição falha. É falha porque omite a maneira que essa monogamia ética tem sido praticada nos últimos anos pelas pessoas que se identificam como “poliamoristas”. Li um bocado sobre isso e já tive a oportunidade de conversar com várias pessoas que se consideram poliamoristas\poliamorosas, então vou tentar traçar um pouco dos padrões que encontrei.

Não existe uma “bíblia do poliamor”, mas notei que, pelo menos entre as que conheço, toda pessoa que se considera poliamorista concorda com as seguintes três premissas:

É mais difícil do que parece

1) Honestidade. Não existe poliamor sem honestidade. Muitas vezes se associa poliamor com traição, mas é o contrário. A ideia de poliamor é saber lidar com as próprias atrações, vontades e desejos sem ferir e enganar pessoas queridas. E não é apenas honestidade direcionada ao outro, mas também honestidade consigo mesmx. Admitir para si mesmx: eu sinto ou posso sentir amor, atração, desejo, carinho, por mais do que uma pessoa. Meu companheiro ou minha companheira também sente. Isso não é necessariamente errado e pode ser ótimo, mas traz algumas dificuldades. Como eu posso\devo lidar com isso? Poliamor envolve encarar situações complicadas de frente.

poliamor

2) Amor infinito. A sociedade nos faz acreditar, desde pequenos, que o amor afetivo-sexual (aquele que costumava ser chamado de “amor entre um homem e uma mulher”) é finito, e, por isso, você deve sempre amar apenas uma pessoa – se você amar duas (ou mais), você ama menos, você não ama de verdade. Poliamoristas não concordam com isso. Para o poliamor, você pode amar uma segunda (ou terceira, ou quarta) pessoa sem prejudicar o amor que sente pela primeira. Cada amor é diferente, pode ser mais forte, menos forte ou simplesmente diferente, mas um não necessariamente prejudica o outro. O que, convenhamos, é perfeitamente aceito na sociedade para outros tipos de amor. Se uma mãe tem uma filha e depois tem outra filha, ela não passa a amar menos a primeira. O amor que você sente por um amigo não diminui ao fazer mais amigxs. Por que quando contato sexual (ou simplesmente atração física) está envolvido, o amor precisa se restringir a uma pessoa só? Para poliamoristas, não precisa.

its complicated

3) Acordos. Os acordos surgem da necessidade de colocar em prática a segunda premissa, a partir da primeira. Cada pessoa tem toda uma miríade de sentimentos e é muito difícil compreender estando de fora (ou mesmo de dentro). Quando os conflitos surgem (por exemplo, por causa de ciúmes, ou mesmo dificuldades cotidianas), o poliamorista valoriza o diálogo, a busca pelo consenso. Muitas vezes, o que parece um problema insolúvel, um ciúme insuportável, pode ser facilmente resolvível através do estabelecimento de pequenas regras, que podem ser mais ou menos flexíveis, mais ou menos tácitas, mais ou menos duradouras.

No caso da forma de relacionamento conhecida como monogamia, dominante em nossa sociedade ocidental, há um grande acordo, dentre outros, que todo casal precisa(ria) respeitar: Qualquer coisa tão ou mais íntima que um beijo na boca é exclusivo do casal. O que o poliamor propõe é desconstruir esse acordo e, através do diálogo, recomeçar do zero para cada relacionamento, seja ele a dois, a três, a quatro etc. O que incomoda uma pessoa pode não incomodar a outra – quando a conversa avança, resultados surpreendentes aparecem.

Todo tipo de acordo, desde que honesto e consensual, é válido, sem julgamentos. Surgem então exemplos de acordos a dois (ou a três, quatro…) do tipo: “cada um pode sair com outras pessoas, mas passamos o fim de semana juntos”; “cada um pode sair com outras pessoas, mas não quando o outro estiver triste”; “cada um pode sair com outras pessoas, mas apresentando ao outro caso se torne algo profundo”; etc. Os acordos nem precisam ser simétricos da maneira acima – depende de cada relacionamento. Tentei dar exemplos, mas a verdade é que os acordos são muito mais complicados do que simples frases: eles envolvem uma série de conceitos já estabelecidos no relacionamento, uma série de obviedades dentro de cada interação.

Para dar um exemplo prático, o acordo maior entre eu e a Polietc é de que nos relacionamos com outras pessoas desde que o outro se sinta incluído. O que isso significa? Muda com o tempo (já mudou bastante), mas na maior parte das situações é bastante óbvio para os dois. Quando deixa de ser óbvio, conversamos sobre. Simples assim.

Para quem quiser saber mais, algumas recomendações pessoais:

The Ethical Slut (Dossie Easton e Janet Hardy)
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Ethical_Slut
Um livro muito importante na história do poliamor. Foi minha primeira leitura sobre o assunto, é minha maior referência e com certeza influenciou muito esse texto.

Polyportugal
http://polyportugal.blogspot.com.br/
Grupo (português) de discussão e apoio para pessoas que se interessam por e/ou praticam o Poliamor.

Palestra Poliamor e Psicologia

Organizada pelo pessoal do Polyportugal, dá uma boa visão geral de poliamor e algumas dicas para psicólogos sobre como lidar com pacientes poli.

Kimchi Cuddles
http://kimchicuddles.com/


Uma divertida webcomic sobre (principalmente) o cotidiano de relacionamentos poliamorosos.

Anúncios

Um comentário sobre “Sobre Poliamor II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s