Dia da visibilidade de quem?

Dia 29 de agosto foi dia da visibilidade lésbica e bissexual (em muitos lugares referido somente como dia da visibilidade lésbica). No dia, um milhão de mensagens legais no FB, mas nos dias seguintes vai se falando cada vez menos até que param de falar. Isso acontece com todo tipo de movimento. Perto do dia da consciência negra (que não é feriado nacional – é importante dizer) tem um monte de mensagens contra o racismo, mas no dia seguinte a cota de piadas racistas volta ao normal em todas as redes sociais. O mesmo com parada gay. Só não acontece o mesmo com marchas das vadias, porque machistas e misóginos nunca dormem.

É uma pena que misturem dia da visibilidade lésbica e bissexual. Deveria ter um dia para cada uma delas, pois são grupos distintos, embora possuam muito em comum. Fato é que bissexuais estão só enfeitando siglas de movimentos e fazendo número nas lutas. O que está por trás disso é uma tonelada de preconceitos que vêm tanto de heterossexuais como de homossexuais, tanto homens quanto mulheres. Lésbicas sofrem muito com preconceito e estou longe de negar isso, mas pelo menos não se duvida da sua existência.

Sou mulher e bissexual (e poliamorista e outras coisas que me tiram da categoria homem branco hétero cis de classe média loiro dos olhos azuis) e minha piada do dia da visibilidade foi dizer para as pessoas que existe mulher bissexual, porque, sim, há quem duvide.

Se duvidar fosse o único problema não seria tão ruim, mas a gama de preconceitos é gigantesca. Considera-se que toda bissexual é incapaz de ser fiel (no sentido mononormativo, de ficar com uma pessoa só); que é uma fase, uma indecisão que vai passar; que é vontade de aparecer; que no fundo há uma orientação sexual binária, mas há medo de assumir por uma questão ou outra; que ela quer ou aceitaria ficar com qualquer homem ou mulher que apareça na frente; que ela apresentará amigas e fará um show para o amigo, namorado ou qualquer homem com quem ela se relacione; que ela oscila entre hétero e lésbica, porque é impossível ter atração pelo dois gêneros. Acredito que a maioria dos outros deriva desses.

Esses preconceitos vêm majoritariamente de visões machistas, pressupondo que toda mulher deve satisfazer o homem e, se a fantasia dos homens é ver duas mulheres se pegando, que seja. Além disso, tem o binarismo na classificação hétero/homo, toda e qualquer pessoa teria que se encaixar em uma dessas categorias e a bissexual somente oscilaria entre uma e outra. Bissexuais sentem atração por homens e mulheres, às vezes na mesma proporção, às vezes em proporções diferentes, às vezes incluindo outros grupos e abandonando a ideia de binarismo de gênero (eu particularmente sou dessas).

Dia da visibilidade bi não deveria estar junto da lésbica, pois são grupos com demandas diferentes, embora muitas sejam comuns. Lésbicas precisam de respeito. Bissexuais também, é claro, mas as pessoas têm uma noção muito mais clara do que é ser lésbica do que do que é ser bi. Se esse dia deveria ser compartilhado com outro grupo, deveria ser com pansexuais, que estão muito mais próximos no nível de preconceitos e desconhecimento público do que lésbicas. E eles nem fazem parte de siglas, nem para enfeitar.

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