As coisas complicadas do Poliamor, ou pra quem está se adaptando…

Por Trisklen.

Uma coisa é você, logo no início da sua vida amorosa, se identificar como poli. Outra coisa é, depois de 20 anos de vida monogâmica, com filhos, casa, cachorro (no meu caso, gatos), você resolver mudar sua filosofia de vida. São muitas coisas a adaptar. De início, a própria cabeça da gente dá um nó, porque você aprende na sociedade patriarcal que é errado amar/ “se relacionar” com duas pessoas, pelo menos abertamente, porque por debaixo dos panos isso é uma prática de grande parte dos monos.

Segundo, vem a questão de encontrar alguém. Você tem família, não dá pra se relacionar com alguém que não entenda/respeite isso. As coisas de início precisam ficar um pouco em “stand-by”, até as pessoas que fazem parte do círculo familiar entenderem/aceitarem. Isso demanda paciência dos envolvidos na relação poli. E às vezes a ânsia de viver plenamente a relação arruína tudo.

Muitas vezes também você se engana, a pessoa que você encontra se identifica como poli, mas seu comportamento no dia-a-dia mostra o contrário, e lá vamos nós de novo, na busca…

Eu ainda estou na primeira etapa, ainda bem, encontrei uma pessoa legal, que também está aprendendo que nem eu e meu companheiro de vida. Mas não são poucas as confusões e estresses que passamos na adaptação ao relacionamento.

O mais difícil para mim tem sido praticar o desprendimento. Tenho uma relação muito boa com meu companheiro de vida, nós fazemos quase tudo juntos, e trocamos ideias sobre tudo. Então, quando esse novo companheiro, que é um amigo de longa data, chegou para compartilhar uma relação poliamorosa comigo, tive a tendência a querer repetir esse modelo. Imaginem como isso é complicado. Depois fui vendo que é algo impossível. Alguns motivos:

  1. São pessoas diferentes, não tem como repetir a relação de maneira igual.
  2. Os estilos de vida, a rotina, as outras relações que ele tem não me permitem participar tanto assim da vida dele como gostaria.
  3. Ele vem de relacionamento aberto, tinha outro modo de enxergar essas relações, e está se adaptando. Eu venho de uma relação mono. Já viu o problema, né?

Para exemplificar essa coisa do desprendimento: semana passada estivemos às voltas com uma situação ocorrida. Esse meu segundo companheiro, além de manter três relacionamentos mais comprometidos (eu e mais duas), tem umas amigas com quem mantém relações afetivo-sexuais. Tinha pedido a ele para não incluir pessoas novas nesse círculo sem que eu participasse do processo, porque minha adaptação a esse estilo de vida será melhor se me sentir incluída, além de que manifestei a vontade de conhecer as amigas dele. Conversamos e acertamos isso. Mas no meio da semana ele me fala que saiu com uma amiga e “rolou a transa”, sendo que ele nunca tinha transado com essa amiga.

Depois de muitas farpas, quebra-pau via e-mail, e “usar de tanta educação para destilar terceiras intenções”, percebemos que o que houve foi uma falha na comunicação, que acabou mexendo com minha insegurança e falta de desprendimento, porque como não estava esperando, me senti ameaçada, e algo completamente irracional me dá um alarme que posso perder meu companheiro para essa fulana nova. Tudo muito irracional mesmo, eu admito.

Ainda não entendo o que aconteceu comigo, mas fiquei meio tristinha, porque, como sempre, acredito que não posso ter determinadas reações se me disponho a viver poliamorosamente.

Sou terrível comigo mesma, me cobro demais, e também cobro dos outros. Meu segundo companheiro me confessou essa semana que sou muito exigente com ele, eu fiquei meio sem graça. Fui perguntar a meu companheiro de vida, que não me disse nada, mas deu uma risadinha, que já disse tudo.

O bom de ter outra pessoa é que, como é alguém novo, que não te conhece na intimidade nem você o conhece, é uma aprendizagem tanto de si quanto de como lidar com o outro e as situações que vão acontecendo. Isso é muito bom, porque numa relação de 20 anos, nos acostumamos e adaptamos, então já nem vemos defeitos como defeitos, ou qualidades também não se destacam tanto como quando você está num relacionamento recente.

Estou aprendendo a enxergar minha ansiedade, meu nível de exigência, meu sentimento de posse, minhas inseguranças… Tudo isso é bom, apesar de ser um processo que causa certo sofrimento. A experiência é impagável, e pretendo continuar, mesmo tendo uns “pega-pra-capar” de vez em quando…

Sobre preconceitos I

Que poliamoristas sofrem preconceito não é novidade, principalmente por parte de praticantes da monogamia. Alguns são respeitosos e entendem que a forma como eu me relaciono é somente da minha conta. No entanto, há aqueles que não entendem, não “aceitam” (como se precisássemos de aprovação para existir) e ainda por cima julgam as outras pessoas.

Até hoje eu tinha esbarrado em textos equivocados, mas muitas vezes até bem intencionados, do tipo “existe isso, mas não é pra mim” ou os extremamente raivosos, fundamentados em religiões distintas, que simplesmente demonizavam. Contra esses últimos não tem como discutir, porque não são pessoas dispostas a ouvir, só se for a própria voz.

Em um dos grupos de poliamor de que participo no Facebook, apareceu esse texto. A pessoa que escreveu parecia que ia saber do que estava falando, parecia que teria feito a pesquisa mínima para postar um texto contra uma forma de relacionamento. Não fez. Percebendo isso, postei questionamentos e informações. O autor do texto apagou, inviabilizando qualquer diálogo, afastando-se de qualquer forma de conhecer o mínimo do que estava levianamente criticando. Dessa forma, me sinto compelida a escrever uma resposta mais detida, que não poderá ser apagada. Em itálico estão os dizeres do autor e em seguida vem minhas respostas. Espero sinceramente que este post ajude a combater preconceitos, informar melhor as pessoas e fazer com que elas reflitam um pouco sobre como seus preconceitos devem ser abandonados. 

Agora está surgindo a nova moda entre as pessoas, conhecida como Poliamor.
Poliamor é o “amor compartilhado” ou “amor múltiplo” onde os envolvidos amam (de todas as formas possíveis) mais de uma pessoa e tentam comparar esse amor carnal com o amor fraternal.

Os praticantes do Poliamor acham que o sentimento de amor por seus parceiros é o mesmo dividido desde nossa infância entre qualquer indivíduo e seus pais (ou irmãos), porém, tenho certeza que esses novos filósofos do amor nunca transaram com seus pais ou beijaram depravadamente seus irmãos. Portanto, estão totalmente errados e enganados em suas teorias.

Pra começar, não sei o que o autor entende por “agora”, mas a prática poliamorista não é nada recente. No máximo, é recente a sua divulgação mais ampla, propiciada justamente pelos grupos de divulgação, conhecimento e apoio. Além disso, uma outra forma de chamar poliamor é “não monogamia responsável”. As denominações “amor múltiplo” e “amor compartilhado” só aparecem nesse texto (uma busca rapidinha no Google mostra isso). O autor começa, então, inventando termos que já demonstram seu desconhecimento. Segue dizendo que poliamoristas acham que o que ele chama de “amor carnal” é o mesmo que se sente por pais e irmãos. Sério. De onde veio isso? Nunca li qualquer texto técnico ou relato dizendo isso. Desafio qualquer pessoa a me mostrar um texto assim.

Ao analisar os praticantes do Poliamor podemos perceber que são idealistas, confusos, desvalorizados e egoístas, do tipo: “se você me quer saiba que eu amo outra pessoa, as regras da relação são minhas, mas não se sinta preso à mim porque não há regras.”

As pessoas que praticam o Poliamor não se sentem preenchidas ou completas. Ambos precisam de mais de um parceiro para se sentir agraciado ou agradecido.
Todo ser humano é completo quando encontra alguém que lhe satisfaça, mas os praticantes do Poliamor não encontram valores em si mesmos, não se sentem satisfeitos consigo mesmos e precisam do máximo de atenção para se sentirem especiais.

Mais uma vez: desconhecimento. Pessoas idealistas, confusas, desvalorizadas e egoístas há em qualquer lugar, mas nunca ouvi um poliamorista dizer o que o autor afirma que pensamos. Tenho um exemplo concreto que é minha relação, que é só um exemplo dos muitos arranjos que o poliamor permite.

Continuando, o autor afirma que não nos sentimos preenchidos ou completos. Qualquer leitura básica de psicologia ou psicanálise vai defender que ninguém é completo. Essa ideia nem vem de hoje, vem desde a noção de “almas gêmeas”, que deveriam se encontrar. Muita gente mono acredita nisso. Polis não. Acreditamos que possa haver uma infinidade de pessoas compatíveis que podem se relacionar. A “completude do ser” não se coloca necessariamente como uma questão para o poliamor como um todo, pode se colocar para um indivíduo ou outro.

Destaco em particular essa última parte, em que se diz que o poliamorista não encontra valor em si mesmo, é insatisfeito consigo e precisa de atenção alheia. Isso vai contra absolutamente tudo o que já li sobre poliamor. O que é problema para nós, o que nos deixa insatisfeitos são o preconceito, a desinformação e a intolerância que textos como esse veiculam.

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Se mais de dois amantes vivem juntos devem ser como robôs ou se suportam apenas para convencer a si mesmos que estão certos em seus idealismos.
Qualquer um que conhece uma mulher de verdade sabe que ela não consegue admitir que outra pessoa esteja tomando seu espaço, principalmente se for outra mulher, assim como qualquer outro homem de verdade que não aceita ver a sua mulher sendo dominada por outro homem.

Não sei de onde o autor tirou a primeira frase. Mesmo que fosse verdade, quantos casais monogâmicos ficam juntos por causa de religião, de filhos, de causas em que acreditam e para provar que estão certos em seus idealismos? Mesmo que essa afirmação fosse verdadeira (não tenho notícia de que seja), não seria algo exclusivo do poliamor.

Além de tudo – e a parte que mais me dói –, esse texto é altamente sexista. O que é ser “mulher de verdade”? É sentir posse? É ser ciumenta? E ser homem de verdade? É ser controlador? É dominar? Se é isso, eu não quero ser uma mulher de verdade, porque possessividade e ciúmes não são sentimentos positivos, não quero ser dominada por ninguém e quero poder sentir as coisas boas que o poliamor me traz livremente.

Vamos cair na real. Os praticantes do Poliamor nada mais são do que adúlteros, fornicadores e amantes de si mesmos.
Os tempos estão se findando e cada vez vemos essas pessoas dando a minima para o que Deus pensa a respeito deles.
Até quando essas pessoas irão agir como se não temessem a condenação de serem lançados no inferno?

Existe uma grande diferença entre putaria e amor verdadeiro. Pensem nisso!

 

Vejamos, no começo do texto se diz que os poliamoristas não se amam, não se valorizam, mas aqui eles são “amantes de si mesmos”? Além disso, adultério é uma criação monogâmica, em que uma pessoa é substituída por outra em uma relação. Não acontece isso no poliamor, pois os acordos são justamente para que cada pessoa tenha seu papel específico nas relações. Uma pessoa não substitui a outra, isso não existe.

Eu ouço que os tempos estão se findando desde que eu nasci, então não sei se é bem por aí… Se o deus que o autor adora julga por etnia, identidade de gênero, orientação sexual ou forma de me relacionar e não a diferença maior que uma pessoa faz para as que estão ao seu redor, definitivamente não mereço e nem quero o amor desse deus. Tem um bocado de divindade por aí, se é que alguma existe, alguma vai me aceitar do jeitinho que eu sou.

Existe diferença entre amor verdadeiro e putaria? O conceito de “verdade” é algo discutido há tanto tempo e requer uma bibliografia tão extensa pra se começar a conversar sobre o tema que não cabe aqui. Mesmo nos restringindo a “amor” e “putaria”, qual é de fato a diferença? Onde se delineia isso? Sobretudo, quem delineia isso? O que tornaria “amor” superior à tal “putaria” além de um moralismo extremamente retrógrado? Eu acredito que cabe às pessoas envolvidas decidirem, não a mim, não ao autor do texto. Talvez a alguma divindade, mas tem tantas possíveis… “Pensem nisso”!

Se há algum erro no poliamor é só o seguinte:

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