Descascando a cebola: um sinuoso caminho pelo amor e pelo autoconhecimento (parte I)

shreksonion

O amor Dança na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha Pode se machucar

Que sufoco! Louco! O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Pra um ethos no Brasil!

(Adaptado da canção O Bêbado e A Equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco)

Meu caminho no mundo da anarquia das relações amorosas (http://amoreslivres.wordpress.com/2013/07/20/relacionamentos-anarquicos-em-8-pontos/) é uma história de transformações, descobertas, dores, decepções, prazeres, realizações e alegrias. Ela começa a partir de um desejo de libertação de convenções sem sentido que me fazia sentir aprisionado e de um desejo de ver minha companheira (a chamarei de Cora) também liberta dos mecanismos patriarcais e de repressão sexual. Via também como um bom caminho para trazer até mim estratégias de auto sabotagem do machismo que está impregnado em minha formação familiar. Sempre gostei de tocar e fazer carinho em minhas amigas ou mesmo dividir uma cama, sem nenhuma pretensão sexual necessariamente. Curtia, e ainda curto, esta liberdade do afeto sem a obrigação do ter que fazer isso, ou ter que fazer aquilo. Também sempre tive mais amigas do que amigos. Não curtia muito os assuntos discutidos entre os homens, tipo: futebol e a competição de quem fez isso ou fez aquilo, ou pegou essa ou aquela menina. Por muitos anos fui um fervoroso evangélico, e somado ao fato de ter me casado, passei uns 15 anos reprimindo este desejo de retornar àquela liberdade que eu tinha com minhas amigas. Um ponto importante sobre este período de minha vida é que, desde quando era cristão, nunca vi muito sentido na monogamia fora dos valores religiosos tradicionais, pelo menos no lado ocidental do planeta. Depois de mais de um ano afastado do cristianismo (já havia abraçado o agnosticismo e o pragmatismo filosófico nesta época), eu descobri os clubes de tolerância e swing. Isso me pareceu muito atraente. Anos antes, um casal que conheci numa sala de bate-papo me falava que tinha esta prática. Em um primeiro instante achei meio louco imaginar minha companheira transando com outra pessoa. O papo rendeu por algumas semanas, poucos meses talvez. Nesta época ainda era cristão e só observava estas coisas de longe, minha postura era de curiosidade e aversão. Até que anos mais tarde, conheci, pela internet, um clube de swing. Minha intenção era ir para observar e, se tivesse muita sorte – pensava eu – conhecer um casal legal em que eu e Cora pudéssemos fazer amizade, e assim, eu pudesse acariciar uma ou mais mulheres, e Cora, algum homem que a atraísse. Pensávamos que poderia ser bacana transar no mesmo ambiente com um ou mais casais, mas sem troca. Na verdade, era um voyeurista e não sabia ainda. Nesta época nunca havia ouvido falar de poliamor ou relações livres, só do swing e de alguns casais mais corajosos e, como eu pensava na época, bem descompromissados que tinham relação aberta. Estava sendo muito influenciado pelos textos de Flávio Gikovate e Anthony Giddens (livro: A Transformação de Intimidade). No início, foi bem difícil convencer Cora em ir a este clube. Havia muitos medos: de ser reconhecida, de não se sentir bem, de se sentir culpada depois… Alguns destes medos eu também tinha. Até que criamos coragem e fomos. Gostamos muito da experiência e a repetimos várias vezes. Fomos conhecendo pessoas pela internet que eram da comunidade swing e tivemos a nossa primeira experiência. Rolou a troca mesmo! No início, foi uma mistura de vários sentimentos, ciúmes e um pouco de tristeza pela maneira como começamos. Eu não esperava que Cora iria sentir vontade de transar logo na primeira saída com um casal, ocorreu fora do combinado. Mas eu sabia que havia este risco e banquei. O sentimento de excitação pelo novo e de libertação foi bem maior que o de tristeza. O ciúme não durou mais que uma semana. E logo desejamos repetir a experiência. Passamos a conhecer os textos da Regina Navarro nesta época, e eles caíram como luva. Nossas experiências no swing foram cada vez melhores do ponto de vista do prazer sexual. No entanto, com o tempo, algumas coisas começaram a me incomodar na comunidade swing. As pessoas, em muitos casos, são vistas como objeto de troca num mercado. O mercado, que me refiro, não é pela troca de prazer em si, mas pela troca de parceiros. Basta dar um breve passeio em um site de swing que se constatará o quanto o corpo feminino é colocado desproporcionalmente mais em evidencia do que o masculino, e quantos casais desejam que as mulheres sejam as ativas realizadoras dos mais diversos fetiches e fantasias. O homem é muitas vezes o ser que gerencia os contatos, e se expõe menos, seja em relação a sua imagem, seja em relação as experiências transgênero. A lógica fortemente presente no swing é a seguinte: só transarás com minha esposa se eu transar com a sua. Não são raros os casos em que a mulher “acompanhava” o marido e se submeteram, inicialmente, a estas experiências para que evitasse “o mau maior chamado traição”. Depois de um certo tempo, algumas começam a curtir mais também, outras aceitam que seus esposos saiam com casais já conhecidos. Muitas me diziam isso. Aí fica como um toma lá dá cá (tendo a mulher como a moeda de troca central)! O principal desafio dos casais que participam do swing é encontrar casais que tenham afinidade entre si, é muito comum um gostar de um, mas o outro não gostar do outro. Eu, como não curtia esta lógica – em que quando não era o da “troca compulsória”, era o de que alguém tem que ceder um pouco para que role a troca, não me importava (e ainda não me incomodo) que minha companheira participasse de ménage com um outro casal. Mas com o tempo tudo isso foi me deixando meio triste, pois não me sentia realizado sexualmente no meio swinger. Não tenho nada contra a prática em si, mas dá muito trabalho encontrar algum casal bacana. Isso demanda muitos encontros e desencontros e longas conversas que em muitos casos não levam a nada porque não são poucos que estão ali somente para transar. Até que decidi propor termos uma relação aberta de outra forma. Que eu pudesse sair com uma ou outra amiga ou casal e ela saísse também com um amigo ou casal. No início, houve muita resistência. Novos medos surgiram e o processo terapêutico ajudou muito durante toda essa caminhada, desde o seu início. Aceitamos então ter uma relação mais livre e aberta. Logo em seguida Cora engravidou (já estava em nossos planos). Isso nos levou a nos afastar por uns meses destas experiências que estávamos buscando. Da parte dela o afastamento durou mais tempo. Tive contato com o site da Rede de Relações Livres (RLi) e com os textos de Mônica Barbosa que fez uma dissertação de mestrado sobre relações livres. Me identifiquei bastante, naquela época, com um fragmento escrito por ela, dizendo que o caminho do poliamor é, as vezes, mais de solidão do que de muitas companhias. Eu e Cora assistimos documentários, filmes e um seriado sobre o assunto. Duas amigas, em que conversava bastante, se afastaram de mim depois que contei meu estilo de vida. Uma chegou a me bloquear no facebook. O mais comum é te julgarem, no mínimo, como estranho ou imoral. Alguns colegas tiveram a clássica postura de achar que isso é coisa de homem fraco, que aceita ser traído. É comum também as pessoas acharem que discutir o tema significa tentar convencê-las a fazer o mesmo. Foi um tempo que achava que somente fora da Bahia que poderia ter alguma relação poliamorosa ou quando já estivesse bem mais velho.

 correnteamizade

(continua)

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