Descascando a cebola: um sinuoso caminho pelo amor e pelo autoconhecimento (parte II)

Vivi um período de muitas decepções. Mulheres que não queriam nada além de sexo e outras que desejavam ter alguma relação mais profunda comigo, mas não a levavam avante. A dificuldade de lidar com o turbilhão de emoções que uma relação aberta demanda, principalmente no início, fez com que tivessem dificuldades de bancar a sua efetivação. O bacana foi que, em todas estas tentativas de efetivação, a amizade continuou se fortalecendo e os diálogos e as experiências vividas ajudaram nos nossos processos de autoconhecimento.

Neste mesmo período, tive meus primeiros contatos com o site PolyPortugal e com os textos do Daniel Cardoso. Conheci alguns meses depois a Mônica Barbosa em pessoa e tivemos boas e longas conversas sobre o tema Relações Livres e a história do grupo RLi de Porto Alegre. A rede social OkCupid me ajudou a encontrar a Mônica e novas amigas que mantenho contato até hoje. Depois de uns dois anos de termos decidido abrir a relação de outra forma, tive algumas experiências de intimidade com algumas amigas, em diferentes graus de aproximação. Foi um momento que passei a encontrar mais compreensão e apoio do que hostilidades dentre as novas amizades que estabelecia, tanto com homens quanto com mulheres.

O fato de passar metade da semana em outra cidade, onde trabalhava, me ajudou a administrar melhor a nova vida que comecei a construir ali. Naturalmente, todas as pessoas envolvidas sempre souberam que eu tenho uma relação aberta, algo que não é segredo entre meu rol de amigos, entre alguns dentre minha família e no meu local de trabalho.
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Alguns meses depois, a oportunidade de estabelecer relações mais profundas e íntimas com mais de uma pessoa começou a se tornar realidade. Comecei uma relação com uma amiga, muito querida, de alguns anos, a chamarei de Alexandra. E logo em seguida iniciei com uma outra mulher que havia conhecido por acaso em uma de minhas viagens de ônibus, a chamarei de Carol. Para todos nós, relações livres ou poliamor era algo novo na prática. Para Alexandra e Carol era uma novidade prática e teórica. Eu e Cora só tínhamos uma experiência um pouco maior nas relações abertas, do tipo swing e saídas esporádicas com algum amigo ou amiga. Alexandra e seu companheiro abraçaram rapidamente a ideia de concretizar o mais plenamente possível a proposta do poliamor. Eles me trouxeram novas textos e reflexões profundas sobre o tema, que me acrescentaram bastante. Apesar de tanto eu quanto Cora termos nos identificado mais com a anarquia das relações amorosas, eu não via conflito algum entre a proposta do poliamor e a filosofia anárquica. Como Cora interpreta as propostas poli como normatizadoras, ela não compartilha da mesma postura que eu tenho.

As dificuldades práticas, na disciplina do planejamento dos tempos com cada uma, eram desafios para mim. Principalmente quando se tem uma filha. Cora tinha dificuldades de aceitar que eu estivesse apaixonado e tendo o nível de intimidade que estava tendo com Alexandra. Por outro lado, Alexandra demandava uma atenção que Cora interpretava como invasiva. Foi o período mais difícil que vivi nesta trajetória. Minha relação com Cora ficou por um fio, pois ela estava em dúvida se aceitaria ter, de fato, uma relação poliamorosa comigo ou não. Neste período Alexandra me apresentou um casal muito bacana que haviam se mudado para mesma cidade em que eu estava trabalhando. Este casal defende a “filosofia” poliamorista há alguns anos e de forma engajada. Trouxeram novas informações, tais como: a definição equivocada trazida pelo RLi sobre o conceito de poliamor, o cenário do movimento em outros Estados do Brasil, e a indicação de um livro que tenho percebido que é quase que a “Bíblia” da comunidade poli internacional, “The Ethical Slut”. Na época este casal tinha acabado de criar uma comunidade no facebook para a discussão dos temas ligados ao cenário poliamorista na Bahia e passei a participar ativamente, e a me sentir mais engajado, nesta comunidade.

Diminuídos os conflitos entre mim e Cora no período inicial, tensões entre mim e Alexandra emergiram de forma intensa e cresceram de tal forma que decidimos terminar a relação que tínhamos a fim de que a amizade pudesse permanecer. Eram conflitos que traziam dor, então tomamos a atitude que julgamos ser a mais prudente. Apesar de tudo, este foi um período que aprendemos muito um com o outro. Atualmente, mantenho uma relação mais próxima com Carol e Cora. Carol tem um namorado em que se relaciona há mais tempo. Ela não curte muito discussões teóricas, ela curte somente viver aquilo que sentimos e prefere a leveza de um amor que busca viver o carpem diem de cada encontro. Hoje esta é a segunda relação mais longa que tenho. Cora tem uns amigos que sai esporadicamente. Ela tem começado a ter interesse em ter relações poliamorosas também. Atualmente, tenho construído uma relação amorosas à distância, baseadas somente na afinidade e no compartilhamento das dores e alegrias do dia-a-dia. Apesar de ser à distância, temos desenvolvido nossas próprias peculiaridades e nossos respectivos graus de intimidade de acordo com aquilo que vamos conhecendo sobre cada um.

Posso dizer sem titubear que hoje me sinto bem mais realizado e feliz do que há anos atrás. Estas relações não são todas sempre cheias de flores… Cora, atualmente, tem buscado aceitar este novo estilo de vida. O que é uma evolução, dado que há pouco tempo atrás ela era avessa a qualquer possibilidade de aceitar uma relação poliamorosa.

O principal resultado desta tortuosa caminhada é que aprendi, e continuo aprendendo, sobre o amor como nunca antes, sobre quão rico e variado é o papel do sexo na vida das pessoas, e sobre mim mesmo. Vejo este processo de autoconhecimento como algo semelhante ao trabalho de descascar uma cebola, a cada camada que tiras, mais perto do centro estarás, mas isso poderá lhe custar algumas ou muitas lágrimas. Assim, hoje me sinto mais realizado, muito menos possessivo e mais íntegro.

UNIÃO-VERDADEIRA

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