Sobre compersão

Voltando a falar um pouco de conceitos gerais, venho maturando esse texto na minha cabeça há algum tempo. Compersão não é simples explicar, não é um conceito de que se fale tanto assim, não é dicionarizado – mesmo dicionários não correspondendo aos usos efetivos dos termos, é algum ponto de partida. Enfim, não há muito material que possa servir de referência.

Tentando começar a conceituar compersão, defendo que é o sentimento positivo que um sujeito vivencia quando as demais pessoas em um relacionamento poliamorista se sentem bem; é uma forma de empatia muito específica.

Formular pode não ter sido tão difícil, mas se permitir esse sentimento e deixar que ele aflore na prática é. Isso, como tantas outras amarras que ainda nos prendem, se liga à mononormatividade, aquele mosquitinho dando rasantes nos nossos ouvidos dizendo que podemos perder o amor da outra pessoa caso ela se apaixone também por outra. Como qualquer normatividade, é difícil escapar dela, mas a gente vai tentando.

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Imagem de Natalia Totta

Além de dizer o que é compersão, é importante dizer o que não é, porque há muita confusão sobre o termo e sobre o sentimento em si, então:

– não é o contrário de ciúmes, é outro sentimento que pode coexistir com os ciúmes. Quando se passa a ser poliamorista, caso se tenha ciúmes e inseguranças, é fundamental perceber e pontuar quando acontece e os motivos. Eu, por exemplo, me incomodo quando usam o mesmo apelidinho pra mim e pra outras pessoas. É uma coisa pequena e fácil de contornar. Também é uma forma de querer algo “exclusivo” e sei que tem uma relação com ciúmes. No entanto, isso não impede que eu ache lindo quando as pessoas com quem me relaciono se apaixonam por outras pessoas e vivem relacionamentos com elas;

– não significa amar menos ninguém, é um sentimento muito positivo ligado a amar tanto e querer ver a outra pessoa tão feliz que a felicidade dela transborda para você. É uma forma profunda de empatia com as outras pessoas;

– não significa desleixo ou não se importar com as outras pessoas. Significa se importar sem posse, se dispor a sentir junto, para bem ou para mal. Como acabei de dizer, é uma empatia profunda, passível de acontecer apenas quando as pessoas estão envolvidas a ponto de a felicidade para uma ser também a felicidade das demais.

As formas de lidar com a compersão ou a momentânea ausência dela (porque acho que toda pessoa poli em algum momento desenvolve, de alguma forma) são variadíssimas e dependem muito das pessoas em si, como elas são, se seguem caminhos mais racionais ou mais emotivos, se precisam se recolher pra lidar com os sentimentos ou lidam conforme acontecem. Da minha experiência ao longo desses anos como poliamorista, é um sentimento que surge em algum momento – não saberia e nem acho que seja algo absoluto precisar o que faz surgir – e o importante é deixar que ele cresça e se desenvolva. No fundo, é se desprender mais um tanto da mononormatividade.

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