Sobre elitismo no poliamor

Elitismo é uma forma de preconceito institucionalizado muito sorrateira. Ele está nas músicas que você precisa conhecer, no lugar onde você tem que comer, nos shows e festas que você não pode perder. Como não estaria, então, nas formas como você deve se relacionar?

A partir do momento em que estão instauradas culturas de maior prestígio social, outras manifestações culturais são exotificadas ou mesmo deslegitimadas. Para dar um exemplo simples, vou falar de música no Rio de Janeiro: quem escuta MPB, jazz, blues, têm mais prestígio e podem falar abertamente do quanto tal música é profunda, interessante, magnífica; quem escuta charme, funk ou pagode jamais pode emitir meia opinião musical sobre algo, em nenhuma esfera de conhecimento, vide a repercussão de quando um professor ousou colocar Valeska em uma prova. Guardemos essa informação.

Nasci e cresci ali no Morro do Juramento, subúrbio do Rio. Ali geral me conhecia, sabia quem eram meus pais, meu irmão, meus avós. Moleque de colégio não vinha de graça pra mim, eu era “bróder” na parada. Isso que hoje chamam de “funk das antigas” foi o que escutei e era o que tocava nas festas dos amiguinhos. Pois bem, na época, por eu ter dificuldade em manter o foco e concentração, minha mãe sabiamente me colocou no ballet, onde passei bem uns 8 anos? Não vou lembrar agora.

Mudei de lugar, de colégio, funk não era tolerado. Toda a minha carga cultural até ali valia um grande nada. Além de tudo da escola, eu tinha que passar por uma “reeducação social”. Aumentando grau de escolaridade, mais conhecimentos gerais eu tinha, mas aqueles da infância/adolescência tinham que ficar escondidos em algum cantinho.

Há uns 3 meses fui me inscrever para fazer dança do ventre. Não segui porque uma lesão antiga em um tendão atrapalhava muito. Dança do ventre é glamurizada, vista como linda, exótica. O que tem vários movimentos em comum e facilitou tantos outros? Isso mesmo, meus amigos, o Funk.

Mas como poderia o elitismo influenciar no poliamor, na prática poliamorista? A informação ainda circula de maneira muito restrita, ou seja, essa ética que defendemos nos relacionamentos com outras pessoas está restrita a uma elite que tem acesso a informações específicas.

A monogamia nunca funcionou nas zonas periféricas, nelas o homem é incentivado e exaltado por relacionamentos paralelos, no estilo “quanto mais melhor”. O homem não sofre com a monogamia, porque é socialmente aceito que ele traia a mulher com quem se relaciona. A mulher é quem fica presa na relação e, quanto mais desprivilegiada, piores são as pressões e julgamentos sobre ela.

É neste ponto em que poliamor tem que se aliar ao feminismo. É aí que se pode mudar, empoderando as mulheres mais desprivilegiadas e, apenas a partir disso, a mulher pode optar por quais acordos as fazem bem.

Há, ainda, duas reflexões possíveis a partir do que foi dito até aqui: críticas à monogamia e críticas ao elitismo do poliamor.

A monogamia não é apresentada como uma opção dentre outras possíveis para estabelecer um relacionamento. Isso se chama mononormatividade, ou seja, é a norma que impõe a monogamia e silencia outras possibilidades. O problema não pode ser a monogamia em si, o problema é a falta de acesso a outras formas de relacionamento, ou mesmo uma mudança na monogamia em que esta deixe de ser necessariamente opressora. É uma questão importante para o feminismo empoderar as mulheres, deve ser questão poliamorista facilitar o acesso a informações.

Há textos que dizem que o poliamor é elitista. Concordo. Hoje, o poliamor só é possível para pessoas de certos nichos culturais. Estamos distantes dos subúrbios, das periferias, dos interiores. De forma alguma devemos nos acomodar nesta posição. É necessário produzir material, compartilhar opiniões, escrever mais, conversar mais. É preciso fazer as informações circularem, chegarem nas pessoas dos subúrbios, periferias, nas cidades de interior.

ajuda