Dia da visibilidade bissexual: sobre sistemas de manutenção de preconceitos e opressão

Hoje é dia da visibilidade bissexual e membros da comunidade bi acordaram de fazer uma blogagem coletiva sobre o tema, como forma de tentar efetivamente construir uma rede maior e mais diversificada de textos bem informados sobre o tema. Como uma parte considerável da divulgação e conversas sobre poliamor está ligada à sexualidade, nada mais justo do que participarmos também. Ano passado, escrevi esse texto no dia da visibilidade lésbica e bi, mas felizmente o cenário vem mudando e cada vez mais nosso próprio dia de visibilidade pode ser destacado.

Acredito que a opressão que nos é imposta e sua manutenção venha principalmente de três fontes: a heteronormatividade, o monossexismo e a mononormatividade – nessa ordem. É claro que nem toda pessoa heterossexual, monossexual ou monogâmica perpetua preconceitos. Quando falamos de normatividades e sexismos estamos falando de sistemas, de formas institucionalizadas de opressão e preconceito.

A heteronormatividade afeta toda pessoa que não seja heterossexual, então é algo combatido pelo movimento ALGBTI – ou LGBT, ou LGBTT ou ALGBTQ, já que não temos uma sigla estabilizada como GLS foi por muito tempo – como um todo. Trata-se de um sistema de opressão que dita que todas as pessoas deveriam ser heterossexuais. Aquelas que não são – que estão fora dessa “norma” – são doentes, aberrações… de alguma forma, estão erradas e não deveriam existir. Daí vêm a maior parte dos discursos bifóbicos, homofóbicos, lesbofóbicos e todo o ódio carregado contra quem não é heterossexual.

As comunidades G e L se organizaram, se tornaram mais visíveis e até respeitadas – apesar dos casos terríveis de homofobia e lesbofobia que vemos; chegamos a vê-los porque a comunidade é mais organizada e denuncia, faz reverberar de forma muito eficiente qualquer caso desse tipo. No entanto, é por parte desses grupos que sofremos uma parcela enorme de bifobia. Isso acontece por conta do monossexismo, que é uma forma de perpetuação de preconceitos, ditando que cada pessoa só deve sentir atração por pessoas de um gênero, seja o mesmo ou o outro; ou seja, ou a pessoa é heterossexual, ou gay ou lésbica. Além de altamente binarista no que diz respeito às identidades de gênero, essa lógica exclui e apaga pessoas bissexuais e pansexuais, seja de forma sutil, como não nos citando entre os grupos que sofrem discursos heteronormativos de ódio, seja abertamente reproduzindo falas como “bissexual não sabe o que quer”, “é uma fase”, “bissexual é uma pessoa indecisa” e incontáveis outras frases ofensivas (incontáveis mesmo… quando você acha que já ouviu de tudo brota uma nova).

Um dos grandes preconceitos sobre bissexuais é de que somos pessoas incapazes de nos mantermos fiéis em uma relação monogâmica. Além de ser uma afirmação falsa, uma vez que a orientação sexual de uma pessoa não está ligada ao caráter dela e nós não somos criaturas guiadas apenas pelo desejo sexual (que é uma fetichização da pessoa bi, aliás), ela é, sim, mononormativa. Ela só é viável e tão propagada porque vivemos em uma sociedade que abomina qualquer outra forma de relacionamento que não seja a monogamia. Dessa forma, o conceito de fidelidade tem uma força enorme e o preconceito citado no começo desse parágrafo assusta as pessoas que pensam em se relacionar com bissexuais. Se não houvesse a mononormatividade, mesmo com esse tipo de discurso circulando, ele talvez não fosse problematizado, porque não estaria entranhada da cabeça das pessoas a ideia de que os relacionamentos têm que ser monogâmicos.

Por fim, o que vemos são essas estruturas construindo e mantendo discursos de opressão que elas mesmas silenciam. Ou seja, quando há um discurso bifóbico, dificilmente a reação/resposta a ele circula com a mesma força ou com força suficiente para combatê-lo. Por isso é importante a organização da comunidade; por isso há um esforço coletivo de conscientização e sensibilização das pessoas para as questões bissexuais; por isso há esse texto.

Vou listando, à medida que for encontrando, outros textos da blogagem coletiva. Para informações mais abrangentes, já deixo a recomendação pro bi-sides, site que trata das diversas questões bi, divulga eventos, de uma forma muito clara e didática.

Vídeo disponível em: http://youtu.be/RhTg9D8Ee9c

Texto no Blogueiras Feministas

Texto no Biscate Social Club

Texto no Na TV

Poema no Palavra com B

Texto no Entendidas, Encontros em SP

Texto em Um Pote de Ouro

Texto em Mídia pra Quem?

Texto do Coletivo Bil

Texto em I Don’t Mind the War

Texto em Dias a Duas

Texto em Inspiração Política e Literária

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Diversidade sexual, poliamor e unicornização

Muita gente pensa que qualquer pessoa que não é monogâmica também não é heterossexual. Isso não é verdade e vem do preconceito de que bissexuais, lésbicas e homens gays não podem ser fiéis. Isso vem da bifobia, da lesbofobia, da homofobia.

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Embora não haja regra pra ser poliamorista, as pessoas são, em geral, tolerantes e livres de preconceitos – quer dizer, todo mundo comete uns deslizes, afinal ninguém se aparta da sociedade em que vive.

Vou tocar aqui na parte em que dói, em que vejo poliamoristas escorregando mais e reverberando opressões: quando há pessoas bissexuais envolvidas. Quando falo de bissexuais, estou me remetendo ao amplo espectro que existe fora da monossexualidade (que é a atração por pessoas de apenas um gênero). Para deixar mais claro, estou me referindo ao Bisexual Umbrella, que você encontra aqui traduzido.

A opressão mais conhecida e praticada por muitos casais que se consideram poliamoristas é a busca por um “unicórnio”, que é a mulher bissexual que se sinta atraída pelo casal, mas que fica longe de qualquer porção de convívio social do casal em questão, porque o casal tem uma vida própria, eventos em família, com amigos, às vezes com filhos. O termo “unicórnio” vem justamente da ideia de caçar algo raro (a mulher bissexual que se sujeite a esses termos de relacionamento), que vai ficar de souvenir, para pura apreciação de quem a “possui”. A “unicornização” é, então, o processo de busca ou de submissão da mulher a tais condições.

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Isso é opressão. É opressão de gênero, porque é feita com a mulher, vista como objeto de prazer para o casal; é opressão de orientação sexual, porque a pessoa que não é monossexual é vista sempre como uma possível “presa”, alguém que pode aceitar se relacionar nessa condição de marginalização dentro do relacionamento.

Isso não quer dizer que toda tríade/trisal funciona dessa forma. Há pessoas que se relacionam a três (ou mais) e todas participam da vida social das demais, sem exclusão, sem opressão. Se formos pensar que queremos visibilidade, respeito e tolerância das pessoas, nos escondermos e escondermos quem amamos não faz muito sentido.

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 (Anthony, Lindsay e Vanessa, que participaram da primeira temporada do Reality Show Poliamory: Married and Dating e mostraram um exemplo de como funciona uma tríade com um homem e duas mulheres em que todos participam da vida de todos; btw, AMO a camisa do Anthony nessa foto!)

Sobre acordos

Como falei lá no primeiro texto, relações poliamoristas são baseadas em acordos e honestidade. Os acordos basicamente mantêm as partes envolvidas entendidas, evitando problemas e ajudam no zelo pelo conforto. Em geral, as pessoas dizem o que desejam em um relacionamento poli e todos buscam atender a essas necessidades mantendo o conforto geral. Nem sempre isso é possível em todos os momentos – as pessoas são diferentes –, então uma prática comum é agir de acordo com as necessidades de quem está passando por mais dificuldades, assim essa pessoa se fortalece e em geral passa a aceitar mais coisas.

Há muitas possibilidades de acordos. O casamento aberto/relacionamento aberto é o mais comum. Como não é o que pratico, estou pedindo a amigos que façam posts relatando suas experiências. Vou falar mais do meu, porque, obviamente, é o que conheço melhor. Se você pratica outra forma ou o casamento aberto, mande seu relato para poliamoretc@gmail.com. Por favor, avise se você quer o texto publicado de forma anônima (do tipo Anon 1, pra ter um número que identifique caso você mande textos depois), com suas iniciais, seu nome, @ no twitter ou a forma como preferir. Eles passarão por uma breve revisão ortográfica e só não serão aceitos textos ofensivos, porque isso passa longe da ideia desse blog.

O acordo em que vivo vem se delineando há cerca de dois anos. Ao contrário da maioria dos poliamoristas que conheci, começamos a entrar em contato com a cultura poli lendo sobre, não praticando. À medida que líamos, percebemos que tinha a nossa cara. A partir daí, começamos a conversar sobre possibilidades reais, do que cada um queria. Descobrimos muito sobre nós mesmos e um sobre o outro nesse processo, o diálogo melhorou demais e, consequentemente, a vida sexual nunca foi melhor. Nosso acordo cabe numa frase bem simples: os dois devem se sentir incluídos nas relações. Se sentir incluído é um conceito vago e gostamos que seja assim, pois permite que avaliemos caso a caso se vai tudo bem conosco.

A crítica que mais ouvimos é “mas se um se interessar e o outro não, alguém tem a liberdade tolhida”. Liberdade é um conceito muito complicado, mas usemos uma definição bem vaga e autorreferente: estamos livres quando nos sentimos livres. Eu não me sinto livre com a infelicidade alheia e me sinto se estão todxs felizes.

Interesse é um sentimento e não sou obrigada a nada simplesmente por sentir as coisas. Se sentimento não tem controle, o comportamento tem e acho que essa distinção é muito importante. Quando há um descompasso de sentimentos, ele se resolve com diálogo e reflexão sobre comportamentos. Daí ou os sentimentos mudam (porque não acredito que eles sejam imutáveis e grandes forças da natureza) ou o comportamento em relação a um sentimento específico muda.

Voltando à questão dos acordos, como diz meu companheiro, quando você decide ser poli, basicamente destrói as regras mononormativas e constrói do zero os acordos do seu relacionamento em conjunto, da forma que xs envolvidxs se sintam confortáveis. Isso exige muito diálogo, muita tolerância, muito respeito e comprometimento entre as pessoas. Como não há a hierarquização forte entre relacionamentos (ou seja, não necessariamente existe um relacionamento mais importante que os outros) que muitas vezes parece haver pra quem vê poliamor de fora, é importante finalizar destacando que quando falo todxs não me refiro somente a um “casal primário”. Ser poliamorista não requer estar em um relacionamento fixo, nem requer a existência de um. Há poliamoristas solteiros, casados, enrolados… Há tríades, pequenos ou grandes grupos… Enfim, há todo tipo de formação possível e o compromisso geral é com a felicidade de quem estiver envolvidx.