Diversidade sexual, poliamor e unicornização

Muita gente pensa que qualquer pessoa que não é monogâmica também não é heterossexual. Isso não é verdade e vem do preconceito de que bissexuais, lésbicas e homens gays não podem ser fiéis. Isso vem da bifobia, da lesbofobia, da homofobia.

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Embora não haja regra pra ser poliamorista, as pessoas são, em geral, tolerantes e livres de preconceitos – quer dizer, todo mundo comete uns deslizes, afinal ninguém se aparta da sociedade em que vive.

Vou tocar aqui na parte em que dói, em que vejo poliamoristas escorregando mais e reverberando opressões: quando há pessoas bissexuais envolvidas. Quando falo de bissexuais, estou me remetendo ao amplo espectro que existe fora da monossexualidade (que é a atração por pessoas de apenas um gênero). Para deixar mais claro, estou me referindo ao Bisexual Umbrella, que você encontra aqui traduzido.

A opressão mais conhecida e praticada por muitos casais que se consideram poliamoristas é a busca por um “unicórnio”, que é a mulher bissexual que se sinta atraída pelo casal, mas que fica longe de qualquer porção de convívio social do casal em questão, porque o casal tem uma vida própria, eventos em família, com amigos, às vezes com filhos. O termo “unicórnio” vem justamente da ideia de caçar algo raro (a mulher bissexual que se sujeite a esses termos de relacionamento), que vai ficar de souvenir, para pura apreciação de quem a “possui”. A “unicornização” é, então, o processo de busca ou de submissão da mulher a tais condições.

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Isso é opressão. É opressão de gênero, porque é feita com a mulher, vista como objeto de prazer para o casal; é opressão de orientação sexual, porque a pessoa que não é monossexual é vista sempre como uma possível “presa”, alguém que pode aceitar se relacionar nessa condição de marginalização dentro do relacionamento.

Isso não quer dizer que toda tríade/trisal funciona dessa forma. Há pessoas que se relacionam a três (ou mais) e todas participam da vida social das demais, sem exclusão, sem opressão. Se formos pensar que queremos visibilidade, respeito e tolerância das pessoas, nos escondermos e escondermos quem amamos não faz muito sentido.

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 (Anthony, Lindsay e Vanessa, que participaram da primeira temporada do Reality Show Poliamory: Married and Dating e mostraram um exemplo de como funciona uma tríade com um homem e duas mulheres em que todos participam da vida de todos; btw, AMO a camisa do Anthony nessa foto!)

Sobre acordos

Como falei lá no primeiro texto, relações poliamoristas são baseadas em acordos e honestidade. Os acordos basicamente mantêm as partes envolvidas entendidas, evitando problemas e ajudam no zelo pelo conforto. Em geral, as pessoas dizem o que desejam em um relacionamento poli e todos buscam atender a essas necessidades mantendo o conforto geral. Nem sempre isso é possível em todos os momentos – as pessoas são diferentes –, então uma prática comum é agir de acordo com as necessidades de quem está passando por mais dificuldades, assim essa pessoa se fortalece e em geral passa a aceitar mais coisas.

Há muitas possibilidades de acordos. O casamento aberto/relacionamento aberto é o mais comum. Como não é o que pratico, estou pedindo a amigos que façam posts relatando suas experiências. Vou falar mais do meu, porque, obviamente, é o que conheço melhor. Se você pratica outra forma ou o casamento aberto, mande seu relato para poliamoretc@gmail.com. Por favor, avise se você quer o texto publicado de forma anônima (do tipo Anon 1, pra ter um número que identifique caso você mande textos depois), com suas iniciais, seu nome, @ no twitter ou a forma como preferir. Eles passarão por uma breve revisão ortográfica e só não serão aceitos textos ofensivos, porque isso passa longe da ideia desse blog.

O acordo em que vivo vem se delineando há cerca de dois anos. Ao contrário da maioria dos poliamoristas que conheci, começamos a entrar em contato com a cultura poli lendo sobre, não praticando. À medida que líamos, percebemos que tinha a nossa cara. A partir daí, começamos a conversar sobre possibilidades reais, do que cada um queria. Descobrimos muito sobre nós mesmos e um sobre o outro nesse processo, o diálogo melhorou demais e, consequentemente, a vida sexual nunca foi melhor. Nosso acordo cabe numa frase bem simples: os dois devem se sentir incluídos nas relações. Se sentir incluído é um conceito vago e gostamos que seja assim, pois permite que avaliemos caso a caso se vai tudo bem conosco.

A crítica que mais ouvimos é “mas se um se interessar e o outro não, alguém tem a liberdade tolhida”. Liberdade é um conceito muito complicado, mas usemos uma definição bem vaga e autorreferente: estamos livres quando nos sentimos livres. Eu não me sinto livre com a infelicidade alheia e me sinto se estão todxs felizes.

Interesse é um sentimento e não sou obrigada a nada simplesmente por sentir as coisas. Se sentimento não tem controle, o comportamento tem e acho que essa distinção é muito importante. Quando há um descompasso de sentimentos, ele se resolve com diálogo e reflexão sobre comportamentos. Daí ou os sentimentos mudam (porque não acredito que eles sejam imutáveis e grandes forças da natureza) ou o comportamento em relação a um sentimento específico muda.

Voltando à questão dos acordos, como diz meu companheiro, quando você decide ser poli, basicamente destrói as regras mononormativas e constrói do zero os acordos do seu relacionamento em conjunto, da forma que xs envolvidxs se sintam confortáveis. Isso exige muito diálogo, muita tolerância, muito respeito e comprometimento entre as pessoas. Como não há a hierarquização forte entre relacionamentos (ou seja, não necessariamente existe um relacionamento mais importante que os outros) que muitas vezes parece haver pra quem vê poliamor de fora, é importante finalizar destacando que quando falo todxs não me refiro somente a um “casal primário”. Ser poliamorista não requer estar em um relacionamento fixo, nem requer a existência de um. Há poliamoristas solteiros, casados, enrolados… Há tríades, pequenos ou grandes grupos… Enfim, há todo tipo de formação possível e o compromisso geral é com a felicidade de quem estiver envolvidx.

Sobre Poliamor

Poliamor é uma forma de se relacionar afetiva e sexualmente com as pessoas apoiada em basicamente três pilares: diálogo, transparência e honestidade. Além disso, o elemento basilar que creio que o diferencie de outras possibilidades é a existência de acordos. Esses acordos consistem no estabelecimento de certas regras que garantam o bem estar da relação e de todos os envolvidos, obviamente.

A quantidade de parceiros e os acordos podem variar imensamente. Tecnicamente, cada grupo pode ter suas próprias regras e essas regras podem variar de acordo com novxs parceirxs que surjam. Não há a necessidade de se estabelecer um parceiro primário – uma pessoa pode estar solteira e praticar poliamor –, mas é bem comum que se formem núcleos de duas ou mais pessoas (tríades, casais que se juntam, uma infinidade de possibilidades).

A forma mais conhecida e, portanto, mais fácil de começar a explicar é o relacionamento aberto, em que geralmente um casal acorda que cada um pode se relacionar com outras pessoas independentemente. Alguns fazem questão de saber quem são essas pessoas, outros não. No entanto, como disse, esse é só um dos acordos possíveis. Há casais que se relacionam com outras pessoas juntos; outros em que um pode se relacionar apenas com mulheres ou com homens; outros em que outras pessoas passam a fazer parte integral da relação e se fecha o grupo. A esse último chamamos polifidelidade, que não é um requisito para o poliamor, mas é uma possibilidade.

É estritamente necessário gostar ou pelo menos não ser totalmente avesso às DRs, porque esse tipo de relacionamento abarca a possibilidade da mudança de acordos, seja de forma geral, seja com um/a lover específicx, ou em uma situação peculiar. É uma revolução contínua, avaliação da relação e dos processos em que todos estão envolvidos. Essa é a parte que eu acho linda. Há quem ache um saco. Ainda bem que há outras possibilidades não-monogâmicas por aí pra quem não se identifica com essa.