Sexo Seguro

Dentre as coisas que eu acho cruciais mas que muita gente não dá muita atenção está a questão do sexo seguro, particularmente envolvendo mulheres. Esse é o meu foco porque há muita informação sobre sexo com homens cis (em geral, ponha uma camisinha no pênis adequadamente e tá tudo certo).

Por um machismo sufocante, nos privamos de muitas coisas. Muitas evitam se tocar, ainda acham que preservativo é escolha do parceiro, mal conhecem seus próprios corpos e caem na terrível ilusão de que sexo entre mulheres é seguro. Fato é que há pouca informação sobre isso, praticamente nenhuma política pública nesse sentido e os métodos, como explicarei, são meio broxantes, trabalhosos e/ou muito caros.

  1. Cortar uma camisinha: Todo mundo já ouviu falar nesse. Certamente é o mais barato, há uma enorme variedade de camisinhas por aí, mas ainda tem todo o trabalho de parar tudo, cortar a camisinha e ficar segurando, ou seja, perde-se a mobilidade das mãos, do toque – o mesmo serve para os chamados “lençóis”, que são basicamente camisinhas já cortadas;Imagem

     

  2. Camisinha feminina: Testei recentemente e, de fato, protege quase toda a vulva (bem, pelo menos a minha), mas pelo menos a marca que testei até o momento é grossa demais, muito difícil de sentir algo além do calor da boca dx doutrxs. Além disso, tem todo o lubrificante, que incomoda x parceirx. No entanto, dá bastante mobilidade para as mãos, que não têm que segurar nada. É uma boa opção pra se levar na bolsa, é relativamente fácil achar em farmácias e é moderadamente cara. Além disso, só escapou fluido vaginal pela parte de baixo, portanto é fácil não se expor e permite uso de sex toys, dedos, língua mais avançada e outras coisas boas. Quando encontrar uma mais fininha eu aviso. Se souber de alguma legal, comente, por favor;
    ImagemImagemÀ esquerda está a que experimentei e à direita a imagem mostra bastante bem como fica o visual
  3. Calcinha preventiva Oral Sex: Lançada, salvo engano, ano passado, foi a melhor opção até o momento. Ela é ajustável, não fica feia e a camada de látex é bem fina e sem lubrificantes. Ainda não testei nesse caso, mas me parece uma boa opção para contato vagina-vagina. Se alguém já testou pra esse caso, por favor, comente sobre sua experiência! O problema é que ela realmente só protege pra sexo oral, é uma “capinha” de látex que fica por cima da vulva. Ela permite mobilidade total, já que adere bem e não notei líquidos vazando por lugar algum. Outro problema é que ela é cara. Em sex shops virtuais, o valor varia entre 8,90 e 19,90. É um produto descartável, ou seja, deveria ser usado somente por uma noite. Fica caro porque é novidade, tem uma parte com rendinha, tecido e elásticos pra ficar bem justa.
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4. Se sua parceira for uma mulher trans pre-op, também são necessários métodos de barreira. Aqui vale o uso da camisinha e, pela mesma questão de sensibilidade, melhor se for daquelas mais fininhas, sem látex, melhor. Elas estão ficando cada vez mais fáceis de encontrar nas farmácias e mais populares.

A partir dessas experiências e de minha conversa com minha ginecologista sobre o assunto, acredito que a melhor alternativa é tomar as vacinas pra HPV e Hepatite, ter aquela conversinha com qualquer parceirx com quem se pretenda ter interações sexuais mais avançadas e cobrar políticas públicas efetivas pra prevenção, porque as que estão aí são caras e/ou ineficientes. Cobrar até 19,90 para as pessoas se prevenirem é um absurdo!

E eu nem vou comentar Magipac, que é aquele filme de PVC, que não tem elasticidade, se rompe facilmente e é terrível de levar na bolsa. Não recomendo de forma alguma.

Minha gineca, que é sensacional, confirmou a falta de políticas públicas, inclusive a pouca divulgação desses meios existentes (vou levar uma dessas calcinhas da próxima vez pra ela ver e ficar pra mostrar eventualmente a outras pacientes). Segundo ela, o pH vaginal, onde se proliferam certas bactérias/vírus das DSTs é incompatível com o pH da boca, mas é possível se contaminar com HPV através de sexo oral, sim. Obviamente, contato entre genitálias também tem seus riscos, compartilhar sex toys e mesmo usar os dedos, caso haja machucados (o que é importante particularmente pra mulheres que fazem as unhas e tiram cutícula). Obviamente, tem também a AIDS, que pode não ser detectável em exames mesmo após 6 meses do sexo sem proteção, o que, mais uma vez, exige uma certa conversa direta e honesta com parceirxs.

Eu mantenho meus exames em dia, peço a qualquer gineco/a me virar do avesso todo ano, mesmo quando vivia numa relação mono e confiando plenamente em meu parceiro, porque eu tenho um perfil um tanto paranoico. Considerando que meus exames continuam vindo dignos de estrelinhas, acho que não é tanta paranoia assim.

Lembram quando falei que em poliamor é importante não odiar DRs? Então, esse é um lado complicado e esse tipo de conversa é importante para a saúde de todxs envolvidxs. Não é só a sua vida, seu corpo, mas a exposição alheia. Numa relação que vai muito além do sexo, que inclui também uma grande dose de carinho, afetividade e cuidado, a questão deixa de ser apenas de um indivíduo, envolve a preocupação de outros. Além disso, passa a ser questão de um grupo, passa a ser questão de saúde pública.

Sabendo de mais novidades, tendo dúvidas ou comentários de qualquer tipo, já sabem o que fazer. =-)

 

Queria agradecer à Andrea, que me chamou atenção, em um tópico não relacionado, para a concepção de mulher que nós temos estar ligada necessariamente à presença de uma vagina. Eu tenho horror à transfobia e nesse post quase caí na armadilha de ser cissexista, sem a menor intenção. Aproveito pra deixar claro – caso ainda não estivesse –  que esse blog é contrário a qualquer opressão. Se alguém me pegar num deslize desses, por favor, avise. Agradecerei demais.

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