A volta à escrita e a treta de bi/pan

 

Oi, gente. A vida andou muito árdua e fui deixando de escrever. Continua tensa, mas tem tanta gente falando sobre isso, incentivando, às vezes de forma bem enfática, que fiquei confortável pra voltar a escrever, procurar pessoas pra colaboração e, enfim, falar de coisas interessantes no blog. Pelo menos de inicio, quero falar mais do “etc”, então estou voltando a um post meu no FB sobre a treta bi e pan. Essa treta é geralmente estimulada por pessoas q não são nem bi nem pan, então sempre acho meio esquisito.

Vamos lá.

Não aguento mais a treta bi x pan. Sério. Então estou postando aqui e vou copiar e colar pro resto dos meus dias. Quem mais estiver lendo, pode compartilhar à vontade, caso veja que o texto abarca o que você pensa e sente.

Uma nota importante pra situar o lugar de onde falo é que me identifico publicamente como bi, porque acredito na ressignificação como método para que a transgeneridade e a ideia de enxergar pessoas e não genitais sejam acolhidas por uma nomenclatura que tem um tiquinho de visibilidade. Em alguns contextos, me apresento como bi/pan. Dito isto, segue a forma como vejo a diferenciação:

A diferença é mais política do que prática.

A pessoa bi sente atração por pessoas do mesmo gênero e por pessoas de outros gêneros. Essa é a ressignificação q a militância bi propõe, pq abarca as pessoas trans e se mantém um termo já conhecido (porcamente conhecido, mas é mais conhecido do q pan).

A pessoa pan se atrai pelas pessoas independente do gênero. Quem se identifica como pan geralmente quer deixar essa questão de se atrair por pessoas trans bem clara e acredita ser melhor usar um termo menos carregado d significados binaristas do q bissexual.

Tanto são termos q não se excluem q muita gente se identifica e descreve como “bi/pan”.

Nenhum termo exclui pessoas trans. Quem exclui é gente transfóbica.

As únicas tretas que acho bem tristes são quando envolve uma pessoa pan se dizendo superior ou mais evoluída do que gente bi e gente bi que diz na maior cara de pau que pan se relaciona sexualmente com qualquer criatura que apareça pela frente, lembrando a parada do copo e coisas do tipo. Quando se fala sobre pan acolher pessoas trans e bi não acolher, geralmente são pessoas cis que falam isso. Essas pessoas nunca perguntam às pessoas trans se elas se sentem contempladas com o termo “bissexual”. Eu mesma sou trans e, como disse antes, costumo falar de mim como bissexual, estou mais próxima da militância bissexual. Tenho várias pessoas conhecidas que pensam da mesma forma que eu e é muito frustrante o silenciamento das nossas vozes quando a questão é sobre transgeneridade.

A gente tem muito mais questões em comum do que diferentes. Vamos dar as mãos pq a luta fica menos árdua com mais gente boa nas trincheiras.

Enormes abraços

PS: por favor, deem feedback sobre o retorno, sugestões de temas e coisas do tipo. <3

Dia da visibilidade bissexual: sobre sistemas de manutenção de preconceitos e opressão

Hoje é dia da visibilidade bissexual e membros da comunidade bi acordaram de fazer uma blogagem coletiva sobre o tema, como forma de tentar efetivamente construir uma rede maior e mais diversificada de textos bem informados sobre o tema. Como uma parte considerável da divulgação e conversas sobre poliamor está ligada à sexualidade, nada mais justo do que participarmos também. Ano passado, escrevi esse texto no dia da visibilidade lésbica e bi, mas felizmente o cenário vem mudando e cada vez mais nosso próprio dia de visibilidade pode ser destacado.

Acredito que a opressão que nos é imposta e sua manutenção venha principalmente de três fontes: a heteronormatividade, o monossexismo e a mononormatividade – nessa ordem. É claro que nem toda pessoa heterossexual, monossexual ou monogâmica perpetua preconceitos. Quando falamos de normatividades e sexismos estamos falando de sistemas, de formas institucionalizadas de opressão e preconceito.

A heteronormatividade afeta toda pessoa que não seja heterossexual, então é algo combatido pelo movimento ALGBTI – ou LGBT, ou LGBTT ou ALGBTQ, já que não temos uma sigla estabilizada como GLS foi por muito tempo – como um todo. Trata-se de um sistema de opressão que dita que todas as pessoas deveriam ser heterossexuais. Aquelas que não são – que estão fora dessa “norma” – são doentes, aberrações… de alguma forma, estão erradas e não deveriam existir. Daí vêm a maior parte dos discursos bifóbicos, homofóbicos, lesbofóbicos e todo o ódio carregado contra quem não é heterossexual.

As comunidades G e L se organizaram, se tornaram mais visíveis e até respeitadas – apesar dos casos terríveis de homofobia e lesbofobia que vemos; chegamos a vê-los porque a comunidade é mais organizada e denuncia, faz reverberar de forma muito eficiente qualquer caso desse tipo. No entanto, é por parte desses grupos que sofremos uma parcela enorme de bifobia. Isso acontece por conta do monossexismo, que é uma forma de perpetuação de preconceitos, ditando que cada pessoa só deve sentir atração por pessoas de um gênero, seja o mesmo ou o outro; ou seja, ou a pessoa é heterossexual, ou gay ou lésbica. Além de altamente binarista no que diz respeito às identidades de gênero, essa lógica exclui e apaga pessoas bissexuais e pansexuais, seja de forma sutil, como não nos citando entre os grupos que sofrem discursos heteronormativos de ódio, seja abertamente reproduzindo falas como “bissexual não sabe o que quer”, “é uma fase”, “bissexual é uma pessoa indecisa” e incontáveis outras frases ofensivas (incontáveis mesmo… quando você acha que já ouviu de tudo brota uma nova).

Um dos grandes preconceitos sobre bissexuais é de que somos pessoas incapazes de nos mantermos fiéis em uma relação monogâmica. Além de ser uma afirmação falsa, uma vez que a orientação sexual de uma pessoa não está ligada ao caráter dela e nós não somos criaturas guiadas apenas pelo desejo sexual (que é uma fetichização da pessoa bi, aliás), ela é, sim, mononormativa. Ela só é viável e tão propagada porque vivemos em uma sociedade que abomina qualquer outra forma de relacionamento que não seja a monogamia. Dessa forma, o conceito de fidelidade tem uma força enorme e o preconceito citado no começo desse parágrafo assusta as pessoas que pensam em se relacionar com bissexuais. Se não houvesse a mononormatividade, mesmo com esse tipo de discurso circulando, ele talvez não fosse problematizado, porque não estaria entranhada da cabeça das pessoas a ideia de que os relacionamentos têm que ser monogâmicos.

Por fim, o que vemos são essas estruturas construindo e mantendo discursos de opressão que elas mesmas silenciam. Ou seja, quando há um discurso bifóbico, dificilmente a reação/resposta a ele circula com a mesma força ou com força suficiente para combatê-lo. Por isso é importante a organização da comunidade; por isso há um esforço coletivo de conscientização e sensibilização das pessoas para as questões bissexuais; por isso há esse texto.

Vou listando, à medida que for encontrando, outros textos da blogagem coletiva. Para informações mais abrangentes, já deixo a recomendação pro bi-sides, site que trata das diversas questões bi, divulga eventos, de uma forma muito clara e didática.

Vídeo disponível em: http://youtu.be/RhTg9D8Ee9c

Texto no Blogueiras Feministas

Texto no Biscate Social Club

Texto no Na TV

Poema no Palavra com B

Texto no Entendidas, Encontros em SP

Texto em Um Pote de Ouro

Texto em Mídia pra Quem?

Texto do Coletivo Bil

Texto em I Don’t Mind the War

Texto em Dias a Duas

Texto em Inspiração Política e Literária