Diversidade sexual, poliamor e unicornização

Muita gente pensa que qualquer pessoa que não é monogâmica também não é heterossexual. Isso não é verdade e vem do preconceito de que bissexuais, lésbicas e homens gays não podem ser fiéis. Isso vem da bifobia, da lesbofobia, da homofobia.

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Embora não haja regra pra ser poliamorista, as pessoas são, em geral, tolerantes e livres de preconceitos – quer dizer, todo mundo comete uns deslizes, afinal ninguém se aparta da sociedade em que vive.

Vou tocar aqui na parte em que dói, em que vejo poliamoristas escorregando mais e reverberando opressões: quando há pessoas bissexuais envolvidas. Quando falo de bissexuais, estou me remetendo ao amplo espectro que existe fora da monossexualidade (que é a atração por pessoas de apenas um gênero). Para deixar mais claro, estou me referindo ao Bisexual Umbrella, que você encontra aqui traduzido.

A opressão mais conhecida e praticada por muitos casais que se consideram poliamoristas é a busca por um “unicórnio”, que é a mulher bissexual que se sinta atraída pelo casal, mas que fica longe de qualquer porção de convívio social do casal em questão, porque o casal tem uma vida própria, eventos em família, com amigos, às vezes com filhos. O termo “unicórnio” vem justamente da ideia de caçar algo raro (a mulher bissexual que se sujeite a esses termos de relacionamento), que vai ficar de souvenir, para pura apreciação de quem a “possui”. A “unicornização” é, então, o processo de busca ou de submissão da mulher a tais condições.

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Isso é opressão. É opressão de gênero, porque é feita com a mulher, vista como objeto de prazer para o casal; é opressão de orientação sexual, porque a pessoa que não é monossexual é vista sempre como uma possível “presa”, alguém que pode aceitar se relacionar nessa condição de marginalização dentro do relacionamento.

Isso não quer dizer que toda tríade/trisal funciona dessa forma. Há pessoas que se relacionam a três (ou mais) e todas participam da vida social das demais, sem exclusão, sem opressão. Se formos pensar que queremos visibilidade, respeito e tolerância das pessoas, nos escondermos e escondermos quem amamos não faz muito sentido.

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 (Anthony, Lindsay e Vanessa, que participaram da primeira temporada do Reality Show Poliamory: Married and Dating e mostraram um exemplo de como funciona uma tríade com um homem e duas mulheres em que todos participam da vida de todos; btw, AMO a camisa do Anthony nessa foto!)

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Olá meu amigo…

Carta a um amigo

O texto a seguir é uma mensagem que enviei a um amigo e, após escrevê-la, me dei conta de que estava narrando questões e dificuldades que não são só minhas, que não só eu vivo. Por isso venho compartilhar as felicidades e dificuldades desse percurso de quem é poliamorista.


 

Olá, meu amigo, Eu precisava te contar tudo o que tem se passado comigo, desde que enveredei por esse caminho do poliamor e, dentro disso um estilo de vida alternativo, em que me abro para o mundo e para as pessoas. Precisava compartilhar isso com você por ser uma das poucas pessoas que talvez me entenda. Em primeiro lugar, ao começar tudo isso, não fazia ideia de como afetaria minha maneira de enxergar o mundo e as pessoas, além da minha forma de interagir com tudo isso. Sinto que estou muito mais aberta a entrar em contato com o Desconhecido, algo que antes era inconcebível para mim, por me apavorar. Talvez tenha a ver com meus medos de ser machucada e de sofrer… talvez com o sentimento de inadequação… o fato é que sempre evitei situações em que me sentisse desconfortável, uma estranha no ninho… travar uma conversa com um desconhecido estaria entre essas coisas consideradas perigosas para mim. Imagine então abrir a minha casa para pessoas que nunca vi na vida! São mudanças que percebo terem vido também com o poliamor… estou com uma ânsia de conhecer gente, de estar com as pessoas, tocá-las, rir e chorar com elas, compartilhar suas histórias e segredos e revelar os meus…eu sou uma pessoa nova a cada dia. Vejo-me e não me reconheço. Isso pra mim é um choque, mas me sinto muito grata ao mundo por ter me guiado por esse caminho, pois com tudo isso não perdi nada, pelo contrário, só tenho ganho muito, cada dia mais.

 

 

 

Dentre as mudanças está o permitir-me sentir. Estou me permitindo gostar de outras pessoas. Com algumas estou estabelecendo vínculos mais afetivos, com outras o vínculo é mais sexual, mas ambos os tipos são de uma riqueza e profundidade de aprendizagem pessoal inigualável. Estou conseguindo dissociar a dimensão sexual da dimensão afetiva (não quer dizer que não tenha afeto pelas pessoas com tenho saído e com as quais tenho uma ligação mais sexual). Tenho estabelecido também níveis de relacionamentos afetivos que posso chamar de relacionamentos poliamorosos, que vão desde relações onde não rola sexo (como a que eu e você temos, e que tenho com mais algumas pessoas por quem tenho carinho imenso e sem as quais seria muito difícil a minha jornada atual), até relações afetivo-sexuais, e entre essas também há níveis. Portanto, são muitas coisas novas, que estão dando um colorido novo à minha vida. Às vezes me vejo meio perdida nesse turbilhão de emoções e sentimentos novos… depois das primeiras vezes que me permiti ter uma experiência de sexo sem tanto compromisso, ao retornar, me senti invadida por fantasmas do passado, que você já conhece bem. Mas tenho feito o exercício de olhar para dentro de mim e enxergar uma pessoa diferente, que não faz nada porque o outro quer, mas por opção própria, por admitir o seu direito ao prazer de desfrutar do próprio corpo como e com quem quiser. Isso tem me ajudado e as últimas experiências estão sendo realmente muito prazerosas… Além disso, o entregar-me ao prazer de ser quem eu quero ser penso que tem me feito uma pessoa mais atraente e interessante… tenho me surpreendido com o número de amigos e amores novos que estão aparecendo pelo caminho… procuro dar atenção a todos, pois o que quero é agregar, somar, multiplicar… para mim não há limites para isso, e é muito bom porque meu companheiro de vida também está curtindo. Ele percebe que estou feliz, posso dizer até realizada, não da maneira que idealizei, mas de uma outra maneira que também é boa e que também me satisfaz. E isso o faz feliz.

Mas nem tudo são flores… a insegurança me invade em muitos momentos… o choque entre essa vida mais livre e a vida que, socialmente falando, construí e sob o prisma da qual a maioria das pessoas do meu meio de trabalho e familiar me veem… um sentimento também de não estar sendo inteira nem com uma filosofia nem com a outra me deixa um pouco triste, um pouco envergonhada até. Gostaria muito de poder assumir publicamente minha opção de vida. Isso muitas vezes me angustia e me faz sofrer, e é uma incógnita se conseguirei resolver esse dilema algum dia. Mas tenho fé… tenho fé que um dia poderemos ser quem somos e assumir publicamente nossas opções; tenho fé que as pessoas passarão a ser mais tolerantes com tem uma orientação sexual diferente da norma socialmente imposta; tenho fé que venceremos nossos próprios medos e preconceitos, pois é a partir daí que as mudanças são possíveis. Desejo-te toda a felicidade do mundo, meu amigo. Você sabe que te amo, seu lugar em meu coração permanece, guardadinho. Paz e amor, forever!

Intimidade…

Intimidade é algo muito subjetivo… se tornar íntimo é algo tão particular, não tem como definir um único conceito para essa ideia, é muito exclusivo e próprio de cada ser. Para exemplificar, segue o conceito da palavra intimidade, retirado da Wikipedia:

“A definição intimidade é complexa uma vez que seus significados variam de relacionamento para relacionamento, e dentro de um mesmo relacionamento ao longo do tempo. Em alguns relacionamentos, a intimidade está ligada ao sexo e sentimentos de afeto podem estar conectados ou serem confundidos com sentimentos sexuais. Em outros relacionamentos, a intimidade tem mais a ver com momentos divididos pelos indivíduos do que interações sexuais. De qualquer forma, a intimidade está ligada com sentimentos de afeto entre parceiros em um relacionamento.”

 

Isso dá uma flexibilidade ao conceito de intimidade, que  torna difícil termos uma ideia exata do que seja. E quando o meu conceito de intimidade se encontra com o conceito de outras pessoas com quem pretendemos ter uma relação mais próxima, muitas vezes acontecem choques e estranhezas.

 

Para mim, intimidade tem a ver com não sentir vergonha, não ter medo de falar o que pensa ou sente. É gargalhar, falar alto, falar besteira, sem medo de incomodar o outro, pois sabe que esse te acolhe como você é. É poder demonstrar o que está sentindo, até o seu lado mais feio, sem medo de perder. Falar coisas que talvez chocassem outras pessoas, mas se sentir seguro pois confia no interlocutor. É não ter medo de parecer besta, ridículo, perverso, palhaço, preguiçoso, egoísta, entre outras coisas…

 

Além dessa intimidade afetiva/psicológica, para mim existe uma dimensão física também que faz parte desse processo: eu tenho uma tendência a incluir a pessoa no meu espaço físico de segurança, à medida que me torno íntima. E gosto de aproximação física. E começo a me sentir à vontade, e a me desnudar, literalmente, pois a intimidade da nudez pra mim é natural. E fazer coisas juntos, tipo, tomar banho, trocar de roupa, escovar os dentes, entre outras coisas. É normal, completamente natural pra mim, à medida que a intimidade vai aprofundando.

Ao lidar com a realidade do outro, muitas vezes esses conceitos se chocam. Para exemplificar, falarei aqui dos meus dois parceiros.

Quando me casei com meu primeiro companheiro, há dezessete anos, eu vinha de uma família de oito pessoas. Em nossa casa não havia muita privacidade. Então para eu compartilhar espaços como banheiro, quarto, cama, era algo comum, necessário até.

 

Meu companheiro já veio de uma família menor, onde cada um tinha direito a ter um determinado espaço, e não havia isso de compartilhar banheiro, por exemplo.

No início da nossa relação, passamos por situações engraçadas e trágicas ao mesmo tempo, para irmos nos adaptando e construindo a nossa intimidade.

 

Ele teve de acostumar com minha mania de andar pelada pela casa. Eu tive que acostumar com não entrar no banheiro quando ele está lá.

 

E assim foi até agora. Depois de tanto tempo, começo a conviver alguns dias da semana com um segundo companheiro. Aí as coisas foram mais complicadas.

 

Ele vem de uma criação evangélica. Isso fez com que a nudez que eu exibia com tanto orgulho o constrangesse, de certa forma, e a intimidade de tomar banho juntos também, para ele, era algo que acabava com o tesão, ao longo do tempo.

 

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Eu não concordo com ele. Estou com meu primeiro companheiro há 22 anos (contando com tudo), e nosso tesão tem se mantido em alta. Mas respeito a vontade dele, pois não posso impor minha noção de intimidade, à intimidade dele, já que é algo que o agride.

Porém, para mim, esse movimento de conter minha nudez e o compartilhar o banho, por exemplo, me faz retardar a construção da minha intimidade com ele. Eu me contenho um pouco. E isso é algo um pouco complicado pra mim. Eu entendo, mas não aceito, digamos.

 

Mas dentro de uma relação poliamorosa, precisamos ter sensibilidade para respeitar os limites de cada um, se queremos que funcione e todos se sintam bem. Não me fez mal a ponto de não poder atender esse pedido dele. Passa por uma vontade de agradar e ao mesmo tempo refletir sobre isso, o que eu posso ceder, o que o outro pode.

 

Agora estamos em processo de construção de uma intimidade nossa, vai levar tempo, por ser uma relação poli, diferente do como aconteceu com meu primeiro companheiro, que viveu comigo monogamicamente por muito tempo. Mas não é impossível e, a essa altura da vida, algo interessante para viver e refletir.

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As coisas complicadas do Poliamor, ou pra quem está se adaptando…

Por Trisklen.

Uma coisa é você, logo no início da sua vida amorosa, se identificar como poli. Outra coisa é, depois de 20 anos de vida monogâmica, com filhos, casa, cachorro (no meu caso, gatos), você resolver mudar sua filosofia de vida. São muitas coisas a adaptar. De início, a própria cabeça da gente dá um nó, porque você aprende na sociedade patriarcal que é errado amar/ “se relacionar” com duas pessoas, pelo menos abertamente, porque por debaixo dos panos isso é uma prática de grande parte dos monos.

Segundo, vem a questão de encontrar alguém. Você tem família, não dá pra se relacionar com alguém que não entenda/respeite isso. As coisas de início precisam ficar um pouco em “stand-by”, até as pessoas que fazem parte do círculo familiar entenderem/aceitarem. Isso demanda paciência dos envolvidos na relação poli. E às vezes a ânsia de viver plenamente a relação arruína tudo.

Muitas vezes também você se engana, a pessoa que você encontra se identifica como poli, mas seu comportamento no dia-a-dia mostra o contrário, e lá vamos nós de novo, na busca…

Eu ainda estou na primeira etapa, ainda bem, encontrei uma pessoa legal, que também está aprendendo que nem eu e meu companheiro de vida. Mas não são poucas as confusões e estresses que passamos na adaptação ao relacionamento.

O mais difícil para mim tem sido praticar o desprendimento. Tenho uma relação muito boa com meu companheiro de vida, nós fazemos quase tudo juntos, e trocamos ideias sobre tudo. Então, quando esse novo companheiro, que é um amigo de longa data, chegou para compartilhar uma relação poliamorosa comigo, tive a tendência a querer repetir esse modelo. Imaginem como isso é complicado. Depois fui vendo que é algo impossível. Alguns motivos:

  1. São pessoas diferentes, não tem como repetir a relação de maneira igual.
  2. Os estilos de vida, a rotina, as outras relações que ele tem não me permitem participar tanto assim da vida dele como gostaria.
  3. Ele vem de relacionamento aberto, tinha outro modo de enxergar essas relações, e está se adaptando. Eu venho de uma relação mono. Já viu o problema, né?

Para exemplificar essa coisa do desprendimento: semana passada estivemos às voltas com uma situação ocorrida. Esse meu segundo companheiro, além de manter três relacionamentos mais comprometidos (eu e mais duas), tem umas amigas com quem mantém relações afetivo-sexuais. Tinha pedido a ele para não incluir pessoas novas nesse círculo sem que eu participasse do processo, porque minha adaptação a esse estilo de vida será melhor se me sentir incluída, além de que manifestei a vontade de conhecer as amigas dele. Conversamos e acertamos isso. Mas no meio da semana ele me fala que saiu com uma amiga e “rolou a transa”, sendo que ele nunca tinha transado com essa amiga.

Depois de muitas farpas, quebra-pau via e-mail, e “usar de tanta educação para destilar terceiras intenções”, percebemos que o que houve foi uma falha na comunicação, que acabou mexendo com minha insegurança e falta de desprendimento, porque como não estava esperando, me senti ameaçada, e algo completamente irracional me dá um alarme que posso perder meu companheiro para essa fulana nova. Tudo muito irracional mesmo, eu admito.

Ainda não entendo o que aconteceu comigo, mas fiquei meio tristinha, porque, como sempre, acredito que não posso ter determinadas reações se me disponho a viver poliamorosamente.

Sou terrível comigo mesma, me cobro demais, e também cobro dos outros. Meu segundo companheiro me confessou essa semana que sou muito exigente com ele, eu fiquei meio sem graça. Fui perguntar a meu companheiro de vida, que não me disse nada, mas deu uma risadinha, que já disse tudo.

O bom de ter outra pessoa é que, como é alguém novo, que não te conhece na intimidade nem você o conhece, é uma aprendizagem tanto de si quanto de como lidar com o outro e as situações que vão acontecendo. Isso é muito bom, porque numa relação de 20 anos, nos acostumamos e adaptamos, então já nem vemos defeitos como defeitos, ou qualidades também não se destacam tanto como quando você está num relacionamento recente.

Estou aprendendo a enxergar minha ansiedade, meu nível de exigência, meu sentimento de posse, minhas inseguranças… Tudo isso é bom, apesar de ser um processo que causa certo sofrimento. A experiência é impagável, e pretendo continuar, mesmo tendo uns “pega-pra-capar” de vez em quando…

Sobre preconceitos I

Que poliamoristas sofrem preconceito não é novidade, principalmente por parte de praticantes da monogamia. Alguns são respeitosos e entendem que a forma como eu me relaciono é somente da minha conta. No entanto, há aqueles que não entendem, não “aceitam” (como se precisássemos de aprovação para existir) e ainda por cima julgam as outras pessoas.

Até hoje eu tinha esbarrado em textos equivocados, mas muitas vezes até bem intencionados, do tipo “existe isso, mas não é pra mim” ou os extremamente raivosos, fundamentados em religiões distintas, que simplesmente demonizavam. Contra esses últimos não tem como discutir, porque não são pessoas dispostas a ouvir, só se for a própria voz.

Em um dos grupos de poliamor de que participo no Facebook, apareceu esse texto. A pessoa que escreveu parecia que ia saber do que estava falando, parecia que teria feito a pesquisa mínima para postar um texto contra uma forma de relacionamento. Não fez. Percebendo isso, postei questionamentos e informações. O autor do texto apagou, inviabilizando qualquer diálogo, afastando-se de qualquer forma de conhecer o mínimo do que estava levianamente criticando. Dessa forma, me sinto compelida a escrever uma resposta mais detida, que não poderá ser apagada. Em itálico estão os dizeres do autor e em seguida vem minhas respostas. Espero sinceramente que este post ajude a combater preconceitos, informar melhor as pessoas e fazer com que elas reflitam um pouco sobre como seus preconceitos devem ser abandonados. 

Agora está surgindo a nova moda entre as pessoas, conhecida como Poliamor.
Poliamor é o “amor compartilhado” ou “amor múltiplo” onde os envolvidos amam (de todas as formas possíveis) mais de uma pessoa e tentam comparar esse amor carnal com o amor fraternal.

Os praticantes do Poliamor acham que o sentimento de amor por seus parceiros é o mesmo dividido desde nossa infância entre qualquer indivíduo e seus pais (ou irmãos), porém, tenho certeza que esses novos filósofos do amor nunca transaram com seus pais ou beijaram depravadamente seus irmãos. Portanto, estão totalmente errados e enganados em suas teorias.

Pra começar, não sei o que o autor entende por “agora”, mas a prática poliamorista não é nada recente. No máximo, é recente a sua divulgação mais ampla, propiciada justamente pelos grupos de divulgação, conhecimento e apoio. Além disso, uma outra forma de chamar poliamor é “não monogamia responsável”. As denominações “amor múltiplo” e “amor compartilhado” só aparecem nesse texto (uma busca rapidinha no Google mostra isso). O autor começa, então, inventando termos que já demonstram seu desconhecimento. Segue dizendo que poliamoristas acham que o que ele chama de “amor carnal” é o mesmo que se sente por pais e irmãos. Sério. De onde veio isso? Nunca li qualquer texto técnico ou relato dizendo isso. Desafio qualquer pessoa a me mostrar um texto assim.

Ao analisar os praticantes do Poliamor podemos perceber que são idealistas, confusos, desvalorizados e egoístas, do tipo: “se você me quer saiba que eu amo outra pessoa, as regras da relação são minhas, mas não se sinta preso à mim porque não há regras.”

As pessoas que praticam o Poliamor não se sentem preenchidas ou completas. Ambos precisam de mais de um parceiro para se sentir agraciado ou agradecido.
Todo ser humano é completo quando encontra alguém que lhe satisfaça, mas os praticantes do Poliamor não encontram valores em si mesmos, não se sentem satisfeitos consigo mesmos e precisam do máximo de atenção para se sentirem especiais.

Mais uma vez: desconhecimento. Pessoas idealistas, confusas, desvalorizadas e egoístas há em qualquer lugar, mas nunca ouvi um poliamorista dizer o que o autor afirma que pensamos. Tenho um exemplo concreto que é minha relação, que é só um exemplo dos muitos arranjos que o poliamor permite.

Continuando, o autor afirma que não nos sentimos preenchidos ou completos. Qualquer leitura básica de psicologia ou psicanálise vai defender que ninguém é completo. Essa ideia nem vem de hoje, vem desde a noção de “almas gêmeas”, que deveriam se encontrar. Muita gente mono acredita nisso. Polis não. Acreditamos que possa haver uma infinidade de pessoas compatíveis que podem se relacionar. A “completude do ser” não se coloca necessariamente como uma questão para o poliamor como um todo, pode se colocar para um indivíduo ou outro.

Destaco em particular essa última parte, em que se diz que o poliamorista não encontra valor em si mesmo, é insatisfeito consigo e precisa de atenção alheia. Isso vai contra absolutamente tudo o que já li sobre poliamor. O que é problema para nós, o que nos deixa insatisfeitos são o preconceito, a desinformação e a intolerância que textos como esse veiculam.

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Se mais de dois amantes vivem juntos devem ser como robôs ou se suportam apenas para convencer a si mesmos que estão certos em seus idealismos.
Qualquer um que conhece uma mulher de verdade sabe que ela não consegue admitir que outra pessoa esteja tomando seu espaço, principalmente se for outra mulher, assim como qualquer outro homem de verdade que não aceita ver a sua mulher sendo dominada por outro homem.

Não sei de onde o autor tirou a primeira frase. Mesmo que fosse verdade, quantos casais monogâmicos ficam juntos por causa de religião, de filhos, de causas em que acreditam e para provar que estão certos em seus idealismos? Mesmo que essa afirmação fosse verdadeira (não tenho notícia de que seja), não seria algo exclusivo do poliamor.

Além de tudo – e a parte que mais me dói –, esse texto é altamente sexista. O que é ser “mulher de verdade”? É sentir posse? É ser ciumenta? E ser homem de verdade? É ser controlador? É dominar? Se é isso, eu não quero ser uma mulher de verdade, porque possessividade e ciúmes não são sentimentos positivos, não quero ser dominada por ninguém e quero poder sentir as coisas boas que o poliamor me traz livremente.

Vamos cair na real. Os praticantes do Poliamor nada mais são do que adúlteros, fornicadores e amantes de si mesmos.
Os tempos estão se findando e cada vez vemos essas pessoas dando a minima para o que Deus pensa a respeito deles.
Até quando essas pessoas irão agir como se não temessem a condenação de serem lançados no inferno?

Existe uma grande diferença entre putaria e amor verdadeiro. Pensem nisso!

 

Vejamos, no começo do texto se diz que os poliamoristas não se amam, não se valorizam, mas aqui eles são “amantes de si mesmos”? Além disso, adultério é uma criação monogâmica, em que uma pessoa é substituída por outra em uma relação. Não acontece isso no poliamor, pois os acordos são justamente para que cada pessoa tenha seu papel específico nas relações. Uma pessoa não substitui a outra, isso não existe.

Eu ouço que os tempos estão se findando desde que eu nasci, então não sei se é bem por aí… Se o deus que o autor adora julga por etnia, identidade de gênero, orientação sexual ou forma de me relacionar e não a diferença maior que uma pessoa faz para as que estão ao seu redor, definitivamente não mereço e nem quero o amor desse deus. Tem um bocado de divindade por aí, se é que alguma existe, alguma vai me aceitar do jeitinho que eu sou.

Existe diferença entre amor verdadeiro e putaria? O conceito de “verdade” é algo discutido há tanto tempo e requer uma bibliografia tão extensa pra se começar a conversar sobre o tema que não cabe aqui. Mesmo nos restringindo a “amor” e “putaria”, qual é de fato a diferença? Onde se delineia isso? Sobretudo, quem delineia isso? O que tornaria “amor” superior à tal “putaria” além de um moralismo extremamente retrógrado? Eu acredito que cabe às pessoas envolvidas decidirem, não a mim, não ao autor do texto. Talvez a alguma divindade, mas tem tantas possíveis… “Pensem nisso”!

Se há algum erro no poliamor é só o seguinte:

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Por que tão longe?

Para quem mora fora do eixo Rio-São Paulo – onde estão as maiores comunidades poli – e/ou não criou sua própria rede em volta de si, os custos emocionais e financeiros de ser poliamorista são muito maiores (às vezes impeditivos de se sustentar um relacionamento da melhor forma).

Quando se relaciona ou há intenção de relacionar com alguém que more longe, o leap of faith (desconheço tradução que transmita a mesma ideia) é muito maior, nossa casa fica lá longe e, por algum tempo, as pessoas envolvidas ficam imersas nas suas próprias emoções e sentimentos, o que pode ser muito bom ou muito frustrante.

 

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Quando é frustrante – como tudo na vida – é que o custo financeiro pesa mais, é quando cada real gasto é questionado. Como uma amiga recentemente disse, tudo é aprendizado nesse processo de se envolver com outras pessoas, de desconstruir monogamia, de morar em um país gigantesco em que poliamor não é algo amplamente divulgado, portanto nem conhecido e nem praticado.

Quando é bom, depois fica um monte de saudade, mas uma saudade bem diferente do que a monogamia nos incute, porque não fica permeada por outros sentimentos como possessividade, ciúmes, controle. É uma saudade que às vezes deixa um vazio e a gente se perde nele. Também está permeado de coisas boas, dos contatos possíveis que hoje a internet propicia, de um monte de lembranças boas que confortam e tornam a saudade quase uma amiguinha, que chega a aconchegar nos momentos em que o vazio não toma conta de tudo.

Eventualmente, é uma saudade tão boa, permeada por tantas lembranças boas e elas acalentam os sentimentos ruins de uma tal forma que eles somem e ficam as sensações boas.

Cada possibilidade dessas é uma aprendizagem, é um processo, é um relacionamento diferente (ou um relacionamento vai ficando diferente, que muda com o tempo). Ainda assim, melhor seria se as pessoas que eu amo estivessem por perto.  

O que fazer com esses sentimentos?

Uma diferença grande que notei desde que eu e polietc nos tornamos poli é com relação a como lidamos ou passamos a lidar com conexões que estabelecemos com outras pessoas. Como não sou nenhuma autoridade no assunto, vou falar aqui da minha visão muito particular sobre o assunto: comentários são muito bem-vindos.

Você já deve ter vivido uma situação assim: aquele momento em que você sente que foi tudo lindo, em que você olha para a pessoa e enxerga nela algo que nunca viu em mais ninguém, em que você sente vontade de ficar o tempo todo perto daquela pessoa. Se você pensar bem, você vai saber que aquilo vai passar, vai assentar e ou se revelar uma ilusão ou se transformar em algo mais sólido e mais realista. Mas, lá na hora, você não está pensando em nada disso, você só está sentindo e querendo sentir mais até que… será que devo? Será que é uma boa ideia mesmo?

E agora?

E agora????

Todos já ouvimos falar de diversas histórias em que as pessoas sentem medo de se aproximar demais de outras pessoas. Não é para menos: na lógica mononormativa (aquela que presume que uma pessoa deve se relacionar de maneira afetivo-sexual com exatamente uma outra pessoa), se você estabelece uma conexão afetivo-sexual com uma pessoa X, você está automaticamente vetado de estabelecer qualquer conexão com qualquer outra pessoa, a não ser que esteja disposta ou disposto a desfazer a primeira conexão. Se, mais complicado, você já possui uma conexão com uma outra pessoa Y, precisa agora escolher: desfaz a conexão com Y, cheia de defeitos mas pela qual você tem muito carinho, ou desiste da conexão com X antes que seja tarde demais e você acabe sacrificando ambas?

Antes de decidir, aprecie a vista!!!

Conforme vou deixando a mononormatividade de lado, minha mente fica gradualmente mais livre: ao estabelecer uma conexão com alguém, é muito mais fácil investir nela – não necessariamente essa conexão vai afetar seus outros relacionamentos e, se afetar, pode ser que seja para melhor! Dessa forma, hoje tenho bem mais facilidade em aproveitar o que cada pessoa, ou melhor, cada relacionamento tem a me oferecer, cada um com suas particularidades, suas belezas e maravilhas. Não importa mais tanto se esse relacionamento vai durar um dia, uma semana, um mês ou uma vida.

Não que medos e cuidados não existam ou devam deixar de existir: eles existem, mas são muito menos avassaladores que aqueles advindos da mononormatividade. Frustações também existem, mas como a pressão é aliviada por não ser a sua única (ou pretensamente única) conexão, elas também acabam não sendo tão destrutivas.
Importante dizer que não estou falando (apenas) de sexo. Aliás, acredito que, ao ter contato com as ideias de poliamor, mesmo casais que optem por continuar monogâmicos podem aprender com isso e se aproximar de outras pessoas sem tanto medo de se afastar da parceira ou parceiro. Afinal, acreditando nas premissas do poliamor (as que mencionei nesse post aqui), o medo de se tornar menos importante para sua pessoa especial ao se aproximar(em) de outras – mesmo que apenas em termos de amizade ou carinho – tende a diminuir.

Por essas e outras que sempre farei questão de divulgar a ideia de poliamor o máximo que possa. Acho que o mundo só tem a ganhar.

Dia da visibilidade de quem?

Dia 29 de agosto foi dia da visibilidade lésbica e bissexual (em muitos lugares referido somente como dia da visibilidade lésbica). No dia, um milhão de mensagens legais no FB, mas nos dias seguintes vai se falando cada vez menos até que param de falar. Isso acontece com todo tipo de movimento. Perto do dia da consciência negra (que não é feriado nacional – é importante dizer) tem um monte de mensagens contra o racismo, mas no dia seguinte a cota de piadas racistas volta ao normal em todas as redes sociais. O mesmo com parada gay. Só não acontece o mesmo com marchas das vadias, porque machistas e misóginos nunca dormem.

É uma pena que misturem dia da visibilidade lésbica e bissexual. Deveria ter um dia para cada uma delas, pois são grupos distintos, embora possuam muito em comum. Fato é que bissexuais estão só enfeitando siglas de movimentos e fazendo número nas lutas. O que está por trás disso é uma tonelada de preconceitos que vêm tanto de heterossexuais como de homossexuais, tanto homens quanto mulheres. Lésbicas sofrem muito com preconceito e estou longe de negar isso, mas pelo menos não se duvida da sua existência.

Sou mulher e bissexual (e poliamorista e outras coisas que me tiram da categoria homem branco hétero cis de classe média loiro dos olhos azuis) e minha piada do dia da visibilidade foi dizer para as pessoas que existe mulher bissexual, porque, sim, há quem duvide.

Se duvidar fosse o único problema não seria tão ruim, mas a gama de preconceitos é gigantesca. Considera-se que toda bissexual é incapaz de ser fiel (no sentido mononormativo, de ficar com uma pessoa só); que é uma fase, uma indecisão que vai passar; que é vontade de aparecer; que no fundo há uma orientação sexual binária, mas há medo de assumir por uma questão ou outra; que ela quer ou aceitaria ficar com qualquer homem ou mulher que apareça na frente; que ela apresentará amigas e fará um show para o amigo, namorado ou qualquer homem com quem ela se relacione; que ela oscila entre hétero e lésbica, porque é impossível ter atração pelo dois gêneros. Acredito que a maioria dos outros deriva desses.

Esses preconceitos vêm majoritariamente de visões machistas, pressupondo que toda mulher deve satisfazer o homem e, se a fantasia dos homens é ver duas mulheres se pegando, que seja. Além disso, tem o binarismo na classificação hétero/homo, toda e qualquer pessoa teria que se encaixar em uma dessas categorias e a bissexual somente oscilaria entre uma e outra. Bissexuais sentem atração por homens e mulheres, às vezes na mesma proporção, às vezes em proporções diferentes, às vezes incluindo outros grupos e abandonando a ideia de binarismo de gênero (eu particularmente sou dessas).

Dia da visibilidade bi não deveria estar junto da lésbica, pois são grupos com demandas diferentes, embora muitas sejam comuns. Lésbicas precisam de respeito. Bissexuais também, é claro, mas as pessoas têm uma noção muito mais clara do que é ser lésbica do que do que é ser bi. Se esse dia deveria ser compartilhado com outro grupo, deveria ser com pansexuais, que estão muito mais próximos no nível de preconceitos e desconhecimento público do que lésbicas. E eles nem fazem parte de siglas, nem para enfeitar.

Poliamor: o começo da prática

Já dei uma visão geral (o polietcetero aprofundou) sobre uma definição básica de Poliamor e sobre os acordos, que são uma parte pouco entendida e às vezes sem querer passamos a impressão de que há algum melhor do que o outro. Espero ter esclarecido que não há e conto com a ajuda de vocês pra mais exemplos de acordos.

Se o poliamor é algo que se pratica, como não falar de como funciona, pelo menos e linhas gerais, essa prática? O mais comum é as pessoas começarem a abrir seus relacionamentos, terem outrxs companheixs e um dia perceberem que existe um nome para aquilo. Daí começam a ler mais sobre o tema, principalmente em grupos ou blogs, e se identificam, passando a ler mais sobre o assunto, conversar mais e levar dessa teoria para suas práticas cotidianas. Ou seja, é um movimento da prática pra teoria.

Mais raro, mas ainda existente, é o movimento contrário. Pessoas que têm contato com poliamoristas (ou simpatizantes) ou ouvem falar de não-monogamia começam a ler, conversar sobre e participar desses mesmos grupos e se identificam, passando a praticar. É um movimento da teoria para a prática.

Os dois são interessantíssimos, dependem do perfil das pessoas envolvidas, então não há uma melhor do que a outra e geram uma troca de experiências absolutamente sensacional quando há esses encontros. É um dos pontos em que se nota essa pluralidade linda do poliamor.

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Esse blog pretende ser um espaço de divulgação de possibilidades, de como há muitas formas de praticar poliamor e ser também um espaço de troca dessas experiências para quem já se considera poliamorista. Participem, divulguem, dialoguem. Acredito que a melhor forma de dirimir preconceitos seja com informação direta e de fácil apreensão. No entanto, formas de preconceito e militância serão temas de outros posts.

Sobre Poliamor II

Já vi várias definições de poliamor, ainda não encontrei uma que considero ideal e talvez jamais encontre, por ser um conceito muito flexível. Uma bastante razoável é “não-monogamia responsável (ou ética)”. Ou seja, permitir a si mesmx a possibilidade de ter mais do que umx parceirx afetivo-sexual, mas sem deixar a honestidade, responsabilidade e respeito por cada parceirx de lado.

Mas, ainda assim, essa é uma definição falha. É falha porque omite a maneira que essa monogamia ética tem sido praticada nos últimos anos pelas pessoas que se identificam como “poliamoristas”. Li um bocado sobre isso e já tive a oportunidade de conversar com várias pessoas que se consideram poliamoristas\poliamorosas, então vou tentar traçar um pouco dos padrões que encontrei.

Não existe uma “bíblia do poliamor”, mas notei que, pelo menos entre as que conheço, toda pessoa que se considera poliamorista concorda com as seguintes três premissas:

É mais difícil do que parece

1) Honestidade. Não existe poliamor sem honestidade. Muitas vezes se associa poliamor com traição, mas é o contrário. A ideia de poliamor é saber lidar com as próprias atrações, vontades e desejos sem ferir e enganar pessoas queridas. E não é apenas honestidade direcionada ao outro, mas também honestidade consigo mesmx. Admitir para si mesmx: eu sinto ou posso sentir amor, atração, desejo, carinho, por mais do que uma pessoa. Meu companheiro ou minha companheira também sente. Isso não é necessariamente errado e pode ser ótimo, mas traz algumas dificuldades. Como eu posso\devo lidar com isso? Poliamor envolve encarar situações complicadas de frente.

poliamor

2) Amor infinito. A sociedade nos faz acreditar, desde pequenos, que o amor afetivo-sexual (aquele que costumava ser chamado de “amor entre um homem e uma mulher”) é finito, e, por isso, você deve sempre amar apenas uma pessoa – se você amar duas (ou mais), você ama menos, você não ama de verdade. Poliamoristas não concordam com isso. Para o poliamor, você pode amar uma segunda (ou terceira, ou quarta) pessoa sem prejudicar o amor que sente pela primeira. Cada amor é diferente, pode ser mais forte, menos forte ou simplesmente diferente, mas um não necessariamente prejudica o outro. O que, convenhamos, é perfeitamente aceito na sociedade para outros tipos de amor. Se uma mãe tem uma filha e depois tem outra filha, ela não passa a amar menos a primeira. O amor que você sente por um amigo não diminui ao fazer mais amigxs. Por que quando contato sexual (ou simplesmente atração física) está envolvido, o amor precisa se restringir a uma pessoa só? Para poliamoristas, não precisa.

its complicated

3) Acordos. Os acordos surgem da necessidade de colocar em prática a segunda premissa, a partir da primeira. Cada pessoa tem toda uma miríade de sentimentos e é muito difícil compreender estando de fora (ou mesmo de dentro). Quando os conflitos surgem (por exemplo, por causa de ciúmes, ou mesmo dificuldades cotidianas), o poliamorista valoriza o diálogo, a busca pelo consenso. Muitas vezes, o que parece um problema insolúvel, um ciúme insuportável, pode ser facilmente resolvível através do estabelecimento de pequenas regras, que podem ser mais ou menos flexíveis, mais ou menos tácitas, mais ou menos duradouras.

No caso da forma de relacionamento conhecida como monogamia, dominante em nossa sociedade ocidental, há um grande acordo, dentre outros, que todo casal precisa(ria) respeitar: Qualquer coisa tão ou mais íntima que um beijo na boca é exclusivo do casal. O que o poliamor propõe é desconstruir esse acordo e, através do diálogo, recomeçar do zero para cada relacionamento, seja ele a dois, a três, a quatro etc. O que incomoda uma pessoa pode não incomodar a outra – quando a conversa avança, resultados surpreendentes aparecem.

Todo tipo de acordo, desde que honesto e consensual, é válido, sem julgamentos. Surgem então exemplos de acordos a dois (ou a três, quatro…) do tipo: “cada um pode sair com outras pessoas, mas passamos o fim de semana juntos”; “cada um pode sair com outras pessoas, mas não quando o outro estiver triste”; “cada um pode sair com outras pessoas, mas apresentando ao outro caso se torne algo profundo”; etc. Os acordos nem precisam ser simétricos da maneira acima – depende de cada relacionamento. Tentei dar exemplos, mas a verdade é que os acordos são muito mais complicados do que simples frases: eles envolvem uma série de conceitos já estabelecidos no relacionamento, uma série de obviedades dentro de cada interação.

Para dar um exemplo prático, o acordo maior entre eu e a Polietc é de que nos relacionamos com outras pessoas desde que o outro se sinta incluído. O que isso significa? Muda com o tempo (já mudou bastante), mas na maior parte das situações é bastante óbvio para os dois. Quando deixa de ser óbvio, conversamos sobre. Simples assim.

Para quem quiser saber mais, algumas recomendações pessoais:

The Ethical Slut (Dossie Easton e Janet Hardy)
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Ethical_Slut
Um livro muito importante na história do poliamor. Foi minha primeira leitura sobre o assunto, é minha maior referência e com certeza influenciou muito esse texto.

Polyportugal
http://polyportugal.blogspot.com.br/
Grupo (português) de discussão e apoio para pessoas que se interessam por e/ou praticam o Poliamor.

Palestra Poliamor e Psicologia

Organizada pelo pessoal do Polyportugal, dá uma boa visão geral de poliamor e algumas dicas para psicólogos sobre como lidar com pacientes poli.

Kimchi Cuddles
http://kimchicuddles.com/


Uma divertida webcomic sobre (principalmente) o cotidiano de relacionamentos poliamorosos.